Resenha: "Interferências" de Connie Willis

Interferências, Connie Willis, Rio de Janeiro: Suma, 2018, 464 pág.
Tradução: Viviane Diniz Lopes
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Saudações Leitores!
Interferências (Crosstalk, 2016) foi meu primeiro contato com uma obra da Connie Willis, que é bastante reverenciada e também premiada escritora de ficção científica. No Brasil há outro livro da escritora já publicado: O Juízo Final.

Confesso que uma das coisas que mais me chamaram atenção foi a capa e também uma afirmação presente na orelha do livro "Um dos livros de ficção científica mais divertidos dos últimos anos", e mesmo sendo um livro que foge total da minha zona de conforto, resolvi dar uma chance e me surpreendi com o começo divertidíssimo, com uma pegada de chick-lit, mas depois alguns problemas se tornaram um empecilho durante a leitura.

Em Interferências vamos acompanhar um futuro não muito distante em que os avanços tecnológicos estão tão grandes que todo mundo sabe da vida de todo mundo por conta da internet, e todas as empresas estão sempre em disputas por quem irá lançar o aparelho, aplicativo ou Gadgets de maior sucesso e inovação é numa dessas empresas, chamada Commspan, que nossa protagonista, Briddey, trabalha. Briddey vive sobrecarregada com as responsabilidades, com as fofocas da empresa e com o relacionamento sufocante de sua família. Para completar, nessa "realidade" do livro, uma cirurgia cerebral chamada EED é a grande queridinha dos casais, pois possibilita uma conexão de sentimentos entre o casal. Ou seja, ambos sentem a intensidade do que o outro está sentindo. É para provar esse sentimento que Trent, namorado de Briddey, propõe que façam um EED e depois, comprovado o "amor" ele vai propor noivado.

Simplesmente, vejo uma alienação muito grande o fato de Briddey ser tão passiva a ponto de aceitar fazer uma cirurgia cerebral sem querer, apenas para fazer a vontade do namorado, além disso a forma como o relacionamento de ambos era não dava respaldo para tal cirurgia. Estava na cara que ia dar errado (pelo menos eu vi isso logo nas primeiras páginas), mas o casal foi e fez a cirurgia, só que ao invés de se conectar com Trent, Briddey se conecta com outro homem que não tem nada a ver, mas que trabalha com ela na Commspan: C.B., e a conexão não é algo simples, apenas de sensações, mas eles conseguem se falar por telepatia - ou algo do tipo. Briddey, terá que lidar com esse efeito colateral da cirurgia, terá que lidar com os problemas no trabalho, com o namorado e com os vexames familiares. É nessa confusão que ela fará muitas descobertas e terá revelações.
Interferências  começou incrivelmente engraçado, mas foi perdendo o foco, foi querendo explicar as coisas (como é pertinente em livros de ficção-científica), no entanto, a cada explicação e detalhe as coisas desandavam e ficavam mais e mais esquisitas, daí eu comecei a pegar um abuso enorme do livro e de como estava a maior enrolação para desenvolver uma estória que deveria ter no máximo 250 páginas, mas protelou para quase 500!!!

Nem o fato das longas páginas e capítulos recheados de diálogos não foi capaz de tornar a leitura mais fluida, e o livro se tornou maçante e pior: entediante. Então para piorar o que já estava ruim, ficou evidente que Briddey, personagem engraçada no começo do livro, virou uma songamonga, totalmente dependente de outra pessoa (ou pessoas), o que acho algo bastante tóxico em qualquer tipo de relacionamento. 

Briddey vivia cercada por relacionamentos abusivos e tóxicos, mas não se dava conta e o pior: sempre se deixava levar pelo que o namorado ou C.B. diziam, ela simplesmente obedecia tudo sem questionar. Eu só conseguia pensar: "NÃO SEJA ESSE TIPO DE PESSOA, PLEASE!". Foi bem aí, que tudo perdeu a graça nesse livro e eu estava apenas na metade, daí pensei: "Vou seguir, isso não pode piorar", mas piorou de uma forma fenomenal e eu peguei RANÇO total do enredo e de TODOS os personagens.
Do meio para o fim de Interferências eu não conseguia ver nada de ficção-científica, nem entendo porque dizem que esse livro é de ficção-científica, no meu entender parece mais algo de fantasia, misturada com misticismo, com uma pegada que deveria ser chick-lit, mas foi tão caricaturado que ficou estranho, bizarro, inaceitável.

Acredito fortemente que Interferências tinha potencial para ter sido um livro incrível, mas ele saiu do rumo e ficou um horror total, e o mais triste é que havia vários temas bem pertinentes e importantes que poderiam ter sido melhor trabalhados, mas que foram soterrados por algo vazio.

O fato de Briddey ter uma família sufocante, abusiva e que não respeitava sua privacidade era um ponto que poderia ter sido trabalhado e feio o leitor fazer várias reflexões a respeito, mas Willis simplesmente tratou esse tipo de comportamento e situação como se fossem normais e até mesmo corretas.

O fato da irmã de Briddey sufocar a filha e viver proibindo a menina de fazer coisas e entrar em pilha e ter comportamentos inconcebíveis para uma mãe, também foi negligenciado por Willis, e pior foi elevado a um tom de humor: como se isso fosse engraçado. SQN.
A problemática dos avanços tecnológicos: até que ponto afeta nossas vida e podem ou não ser benéficos ficou suplantado por conceitos míticos, surreais e desnecessário. Ou seja, mas um ponto que Willis se omitiu de trabalhar.

Para completar o total naufrágio desse livro: o comportamento de total submissão e passividade de Briddey em relação a família e aos homens de sua vida foram a gota d'água, ela simplesmente era um "pau-mandado" e não tinha opiniões próprias e aceitava esse relacionamento abusivo e tóxico de forma totalmente normal e espontânea. Fico triste de ver uma personagem feminina sendo retratada dessa forma, sobretudo em um livro escrito por uma Mulher.

Não tenho coragem de indicar Interferências, na verdade, tenho até vergonha alheia: um livro com potencial que não foi bem desenvolvido é a pior experiência literária de qualquer leitor, um livro com um final sem pé nem cabeça, com a introdução de vários personagens (como se os que já estivessem presentes não servissem para nada), com um desfecho aberto e sem solução para as muitas problemáticas que surgiram durante a leitura é a coisa mais frustrante de se ler. 

Infelizmente não gostei, não indico e estou com um pé atrás com essa escritora. O primeiro contato que tive com um de seus livros foi demais traumatizante. Só lamento.

2 comentários:

  1. Eu acho que a autora não conseguiu fechar todos os temas que ela abriu,me pareceu que ela escreveu as pressas,muita coisa desnecessária,muita coisa que podia ter sido cortada e realmente um livro com grande potencial desperdiçado.

    Https://euhumanaefinita.blogspot.com.br

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    1. Obrigada Monique pela visita e comentário!
      Pelo visto não foi apenas eu que teve essa impressão, é importante saber disso.

      xoxo
      Mila F.

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Muito obrigada pelo Comentário!!!!