Resenha: "Moxie" de Jennifer Mathieu

Moxie : Quando as Garotas Vão à Luta, Jennifer Mathieu, Campinhas, SP: Verus, 2018, 288 pág.
Tradução: Ana Guadalupe
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Saudações Leitores!
Moxie, escrito por Jennifer Mathieu foi eleito um dos 10 melhores livros juvenis de 2017 pela revista Time. Este livro já me chamou atenção por trazer uma protagonista inquieta, corajosa e que busca a união feminina para lutarem contra o machismo cotidiano dentro e fora do ambiente escolar, buscando lugares seguros para as meninas interagirem e compartilharem experiências sem julgamentos sociais baseados em conceitos que só privilegiam o sexo masculino.

Nossa protagonista se chama Vivian Carter (Viv) que é bem jovem e tem uma visão muito empoderada de ver o mundo, mas por ser "uma boa menina" acaba tentando se manter fora de "problemas", tenta não chamar atenção e não opinar em nada para não abalar sua bolha de segurança e anonimato.
"É ridículo. Por que as meninas seriam responsáveis pelo que os meninos pensam e fazem? Como se os meninos não conseguissem se controlar? ... Esse comentário só contribui com a narrativa de que as meninas precisam vigiar o próprio corpo e o próprio comportamento, enquanto os meninos têm permissão e liberdade para se comportar como animais. Não acha que é injusto com as garotas? Não acha que assim nós deformamos os garotos? É totalmente tóxico."
No entanto, na verdade, esse comportamento a deixa e revoltada consigo mesma, pois está cansada de piadas machista, dos privilégios dos meninos na escola, da impunidade deles em relação a comportamentos obscenos e até mesmo de assédio. Viv não aguenta mais essa situação e decide se inspirar no passado de sua mãe e nas zines que faziam parte do movimento feminista Riot Grrrls, é nessa perspectiva que, nossa protagonista, cria suas próprias zines e as chama de Moxie, incitando as meninas de seu colégio a se unirem e protestarem contra as injustiças que sofrem só por serem do sexo feminino. Viv incita suas colegas a terem voz, a não se calarem.

Moxie é claramente um livro que eu gostaria de ter lido na minha adolescência, pois muitos assuntos abordados nessas páginas estão presentes ainda hoje nas nossas escolas, mas nem todo mundo tem a mente aberta para falar sobre isso e o silêncio acaba fazendo com que situações como essas sejam perpetuadas e até mesmo proliferadas, já que não há punição.
"Tenho certeza de que ele não está fazendo de propósito, mas Seth é um cara e não tem como conhecer a sensação de atravessar um corredor sabendo que estão te julgando pelo tamanho da sua bunda ou pela circunferência de seus peitos. Ele nunca vai entender como é pensar duas vezes toda vez que você for vestir uma roupa ou sentar ou andar ou ficar de pé, porque você pode acabar chamando atenção no bom sentido, ou pior, no mau sentido. Ele nunca vai conseguir saber quão assustador e enlouquecedor é sentir que você é propriedade de um Menino Monstro qualquer que resolve que pode passar a mão em você e te agarrar e te avaliar quando e onde ele quiser."
Viv é, claramente, uma adolescente como todas as outras, e não falo isso de forma negativa, calma, mas porque é uma personagem que está vivendo momentos de muita inquietação sobre certo e errado, sobre o que acredita e o que a sociedade faz o favor de perpetuar, sobre ter medo de falar e de expressão seus pensamentos, porque por ser uma menina sua "voz" será inferiorizada, já que aparentemente a sociedade aceita mais a opinião dos homens e sempre encontram uma forma de defendê-los quando estão errados: tipo colocando a culpa das meninas.
Durante a leitura, lembrei da minha adolescência e do momento exato em que me dei conta dessas diferenças. Coisas que aconteciam não só na rua, na escola, mas também dentro da minha própria casa e o quanto foi frustrante viver tudo isso e mais, perceber que mudar uma educação tão arraigadamente machista é um desafio e tanto, mas quando dividimos "responsabilidade", quando nos unimos à outras mulheres nós conseguimos, sim, ter mais voz, ter mais representatividade.

Foi lindo ver a autora, Jennifer Mathieu, colocando conceitos básicos e incríveis sobre o feminismo dentro de Moxie, porque tornou-o, além de entretenimento, um livro que é um tapa na cara do leitor e o faz abrir os olhos para tudo o que está sendo exposto e outras realidades cotidianas vivenciadas por mulheres. Mostrou de maneira magistral o poder da sororidade e da união feminina como transformadora e contagiante.
"_ Eu sei que nem todos os caras são babacas _digo._ Eu entendo. Mas a questão é que fica difícil lembrar disso quando tem tantos babacas por perto, sabe?"
Sim, a cada página do livro me surpreendia mais e mais, sobretudo, me deixava com raiva também de ver os privilégios que os meninos têm só porque são meninos. CARA. DÁ. RAIVA. E. EXISTE. ISSO. MESMO. QUE. VOCÊ. ACHE. QUE. É. DRAMA. DE. MULHER.
Por isso que é tão importante tudo o que Jennifer Mathieu expôs em  Moxie ,porque de forma ÚNICA, ela conseguiu falar sobre feminismo interseccional, local de fala, desconstruiu também que não é todo homem que é machista, que há sim, homens, que podem apoiar as mulheres (mesmo sendo muito difícil para eles entenderem todos os pontos de vistas feminino, porque eles não vivenciam), também alertou à sociedade para acreditarmos nas mulheres quando elas fazem denúncias, porque ao fazerem isso elas estão se expondo, eles têm travado lutas enormes contra seus medos para denunciarem um assédio, um estupro, uma violência... É terrível quando você toma coragem de denunciar as pessoas/sociedade (muitas vezes as próprias mulheres) não acreditam na denuncia.
"Feminista. Não é uma palavra feia. A partir de hoje essa talvez seja minha palavra preferida. Porque na verdade é só isso, meninas que apoiam umas às outras e querem ser tratadas como seres humanos num mundo que sempre encontra um jeito de dizer não."
Moxie é um livro pungente, inquietante e mostra o processo de formação de uma jovem que está aprendendo sobre o feminismo, sobre si mesma e sobre o primeiro amor. SIM, aqui teremos um romance fofilindo, que não é o foco do livro, mas nos deixa suspirando por Seth Acosta que está se esforçando e praticando muito a empatia com o que sua namorada passa no dia a dia e o quanto ele não apoia o comportamento de todos os garotos da escola.
Viv e Steth estão longe de serem o casal perfeito ou pessoas perfeitas, mas eles estavam sempre tentando ser o melhor um para o outro, para si mesmos e para os amigos. O que repassa outras inúmeras mensagens sobre relacionamentos saudáveis.

Ao terminar a leitura de Moxie fiquei com um sorriso no rosto por dias, uma sensação boa e gostosa de ter lido um livro extremamente empoderador e necessário para todas as adolescentes e jovens. Um livro que é capaz de nos inspirar, dar uma lição de empoderamento e de nos fazer sentir orgulho por cada garota quando ela se descobre feminista. Simplesmente AMEI.

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