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O Corcunda de Notre Dame - Victor Hugo (resenha)

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

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O Corcunda de Notre Dame é uma narrativa robusta, dramática e trágica, mas extremamente imponente

Saudações, Leitores!

O Corcunda de Notre-Dame (Notre-Dame de Paris, 1831) é um clássico da literatura francesa escrito por Victor Hugo, autor também de Os Miseráveis. Este é o meu primeiro contato com uma obra do autor. Ambientada na Paris medieval do século XV, a obra tem como cenário principal a famosa Catedral de Notre-Dame e apresenta uma história muito mais complexa do que aquela que muitos de nós conhecemos pelas adaptações. No geral, gostei bastante da experiência, embora tenha sentido dificuldade com a narrativa rebuscada, especialmente por estar habituada a ler obras contemporâneas. Foi interessante voltar a um texto mais robusto e com escolhas de palavras inteligentes, mas algumas descrições acabaram me cansando.

A história gira em torno de Quasímodo, o sineiro da Catedral de Notre-Dame, um homem corcunda marcado pela aparência física e pela rejeição social, que foi criado pelo arquidiácono Claude Frollo. Nesse universo também conhecemos Esmeralda, uma jovem cigana de apenas 16 anos, que desperta paixões e obsessões, além de outros personagens cujos destinos acabam se entrelaçando em uma trama repleta de injustiças, desejos, preconceitos e tragédias. Eu me lembrava vagamente da história por causa da animação que assisti na infância, mas não tinha dimensão de sua complexidade. O livro me surpreendeu justamente por mostrar que não se trata apenas da história de um homem considerado feio, mas de uma narrativa sobre a humanidade, suas contradições e a facilidade com que julgamos os outros pela aparência.

Os personagens são incríveis e questionáveis ao mesmo tempo. Senti muita compaixão por Quasímodo, que parece ser uma vítima das circunstâncias, da aparência e da maneira como foi tratado durante toda a vida. Entretanto, ele também não é simplesmente bom ou mau, e algumas de suas atitudes são difíceis de compreender. O que mais me entristeceu foi perceber que ele amava justamente duas pessoas que o trataram tão mal: Frollo e Esmeralda. Se o desprezo dos demais já era cruel, vindo daqueles por quem nutria afeto se tornava ainda mais doloroso. Claude Frollo, por sua vez, é um personagem extremamente complexo: apesar de ter acolhido e criado Quasímodo, é arrogante, cruel com ele. Sua aparente religiosidade contrasta com suas atitudes profanas e sua obsessão por Esmeralda, que acaba conduzindo a acontecimentos terríveis. Já Esmeralda, embora seja vítima de preconceitos por sua origem cigana e seja vista por muitos como um objeto, também se deixa conduzir pela aparência ao rejeitar Quasímodo, mesmo diante de sua bondade. São personagens cheios de contradições que despertaram sentimentos ambíguos em mim. Na verdade, acho que esse é um dos méritos de Victor Hugo: nenhum personagem é apresentado de maneira tão simples que nos permita julgá-lo sem questionamentos.

Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção foi a reflexão sobre aparência e essência humana. Victor Hugo mostra uma sociedade que rejeita Quasímodo por sua aparência, enquanto pessoas consideradas belas ou respeitáveis escondem comportamentos muito mais cruéis. Afinal, quem são os verdadeiros monstros dessa história? A obra também aborda preconceito, exclusão social, xenofobia, capacitismo, desigualdade e hipocrisia religiosa. Frollo é um exemplo emblemático dessa última questão: sua posição religiosa não o torna virtuoso, tampouco o impede de agir de maneira egoísta e destrutiva. São reflexões que continuam atuais e nos lembram de que a beleza é passageira, mas aquilo que somos e fazemos diz muito mais sobre nós.

Quanto à escrita, Victor Hugo demonstra uma maestria impressionante ao descrever Paris, sua arquitetura, suas ruas e, principalmente, a Catedral de Notre-Dame, que como muitos já disseram em análises, praticamente assume o papel de uma personagem na narrativa. Entretanto, as longas contextualizações históricas e arquitetônicas tornaram a leitura cansativa em diversos momentos. Reconheço que essas passagens enriquecem a obra, mas, como não conheço Paris nem os lugares mencionados, algumas descrições acabaram sendo enfadonhas para mim e prejudicaram o ritmo da história. Ainda assim, é impossível não reconhecer a habilidade do autor em transformar tantos detalhes em literatura.

O desfecho me deixou bastante impactada e triste. Eu não me lembrava de que a história terminava de maneira tão trágica, embora, conforme os acontecimentos avançavam, fosse possível perceber que dificilmente haveria um final feliz para aqueles personagens. É uma narrativa repleta de drama, mortes e desilusões. Considero que a obra traz marcas de seu tempo que merecem ser problematizadas, mas isso não diminui sua importância: é preciso compreender um clássico também dentro de seu contexto histórico. O Corcunda de Notre-Dame merece ser lido porque continua provocando reflexões sobre a humanidade, a sociedade, a religiosidade e os valores que atravessam diferentes épocas. Recomendo a leitura, especialmente para quem aprecia clássicos e está disposto a enfrentar mais de 600 páginas em uma narrativa robusta e de ritmo oscilante.

Espero que tenham gostado da resenha, obrigada por ler e até a próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Notre-Dame de Paris
Autor: Victor Hugo
Tradutor: Jorge Bastos
Gênero: Romance Histórico. Drama.
Editora: Zahar
Ano: 1831-2015 | 624 págs.
País de Origem: França
Classificação: +16
Aviso de Conteúdo: Assédio sexual. Obsessão. Tentativa de estupro. Pedofilia. Preconceito. Xenofobia. Capacitismo. Humilhação pública. Violência física. Tortura. Assassinato. Enforcamento. Execução. Abandono. Negligência. Suicídio. Luto.
Minha avaliação: 
⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5)
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