Resenha: "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" de Martha Batalha

Saudações Leitores!
O curioso título de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão chamou minha atenção para a leitura da sinopse e depois PRECISAVA ler esse livro, amo livro que tragam personagens femininas, gosto de estudá-las e vi essa oportunidade maravilhosa e mergulhei...
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A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha, 
São Paulo: Companhia das Letras, 2016, 185 pág.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016) é o livro de estreia de Martha Batalha, escritora nascida em Recife, mas crescida na Tijuca (RJ) e teve um feito raro para um livro de estreia já que seus direitos vendidos para o cinema e para mais de dez editoras estrangeiras.

A primeira coisa que me dei conta ao iniciar o livro foi o "tom" clássico - se é que me entendem - com uma narrativa séria, que não é feita para agradar, mas para "cuspir" verdades e fazer criticas a sociedade da época (década de 20), que, para mim, não mudou tanto na atualidade (como costumamos supor), isto é, retrata um tempo passado, mas prova que o tempo passado não é tão passado assim, pois há ainda muitas coisas que permanecem, muitos pensamentos e ações limitadas e ultrapassadas ainda se fazem presente.


Outra coisa que me chamou bastante atenção é que o livro de uma maneira singular fala do empoderamento da mulher, sobretudo, quando fala do machismo tão presente e das tentativas da personagem Eurídice se libertar do modelo padrão do feminino.

Em A Vida Invisível de Eurídice Gusmão podemos evidenciar com bastante precisão que a "lei" da sociedade era viver de aparência e do "O que os outros vão pensar ou dizer...", tais fatos sobrepunham o amor ou mesmo a felicidade, mostrando que na época as mulheres só poderiam esperar algo como um marido, uma casa e filhos para cuidar, ou seja: viver para os outros e não para si mesma. Que a vida seria uma rotina e marasmo sem fim, pois uma mulher não poderia ter aspirações pessoais e profissionais.
"Nunca teve tanta raiva, Antenor. Só não jogou máquina Singer, neguinha e tauba pela janela porque estava preocupado com o que os outros iam dizer. E era também por estar preocupado com o que os outros iam dizer que não queria que sua mulher costurasse para fora. Iam achar que ele era homem de menos porque a mulher trabalhada demais." (p.52)


O título também é absurdamente coerente com a história (diferente de muitos livros atuais, este é narrado em terceira pessoa) e mostra uma Eurídice que poderia ter se tornado uma mulher brilhante, mas vivia numa sociedade tão limitada e carcereira, uma sociedade machista, que acabou se tornando invisível para poder ser quem queria ser. Aprendeu a camuflar seus sonhos e foi pioneira em muitas coisas, mas escondia.

"Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar. E foi assim que concluiu que não deveria pensar." (p.12)

Batalha também aproveita-se da história de Eurídice para nos apresentar outras mulheres que poderiam ser qualquer uma e todas ao mesmo tempo,  mulheres que não tinham voz e que eram tão invisíveis quanto Eurídice. Ela retrata tão bem a sociedade de qualquer cidade (interior ou capital) que mostra caricaturas: donas de casa, fofoqueiras, românticas, prostitutas, mentirosas, lutadoras.

Pergunto-me: quantas mulheres poderosas nasceram invisíveis e continuaram invisíveis por todos os dias de suas vidas? Mulheres que poderiam ter sido brilhantes! Vale lembrar que a invisibilidade pode ser vista de várias formas: como aquela que não é enxergada por ninguém, como aquela que para ser enxergada tem que fingir que quem está fazendo algo é o marido, ou aquela que tem que esconder seu verdadeiro eu para não mostrar a fabulosa, criativa e lutadora mulher que é.

Em resumo, há muito tempo eu não lia um livro tão bem escrito, questionador, polêmico e incrível como A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, só espero que ele e sua escritora tenham o reconhecimento que a obra merece e sejam apreciados por todos os leitores que tiverem a honrar de poderem apreciar o volume.


2 comentários:

  1. Oi, Mila! Que resenha caprichada, quantos detalhes, me apaixonei ainda mais pelo livro! Se antes o desejava pela sinopse, pela época que retrata e, sobretudo, pelo feminismo que intrinsecamente carrega, agora já o desejo pela sensibilidade que vc capturou e tão bem colocou na resenha. Parabéns! Mal posso esperar para tê-lo em minhas mãos! Bj

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    1. Êba, Manu...
      sinto-me com o dever cumprido: incentivar e fazer outra pessoa desejar ainda mais ler um livro é o melhor sentimento!!! ♥

      xoxo
      Mila F.

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Muito obrigada pelo Comentário!!!!