Resenha: "Histórias e Conversas de Mulher" de Mary del Priore

Histórias e Conversas de Mulher, Mary del Priore, São Paulo: Planeta, 2014, 304 pág.
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Saudações Leitores!
Histórias e Conversas de Mulher foi escrito por Mary del Priore que além de escritora é historiadora e professora brasileira, obviamente todas estas características ficam bastante evidente em seus vários livros publicados.

Particularmente em Histórias e Conversas de Mulher Mary del Priore vai mostrar as raízes da personalidade feminina no país colonizado pelos portugueses, isto é, as mulheres de nossa terrinha: Brasil.
"As mulheres do século XXI são feitas de rupturas e permanências. As rupturas empurram-nas para a frente e as ajudam a expandir todas as possibilidades, a se fortalecer e a conquistar. As permanências, por outro lado apontam fragilidades. Criadas em um mundo patriarcal e machista, não conseguem se enxergar fora do foco masculino. Vivem pelo olhar do homem, do "outro". Independentes, querem uma única coisa: encontrar um príncipe encantado. Têm filhos, mas se sentem culpadas por deixá-los em casa. Em casa, querem sair para trabalhar. Se cheinhas, querem emagrecer. Se magras, desejam seios, nádegas e o que mais tiverem direito... em silicone. Desejam o real e o sonho, de mãos dadas. São várias mulheres em uma. Buscar o próprio rosto entre tantos outros é o desafio. Mas o maior desafio mesmo é mostrar que elas podem ter um rosto só."
Para mim, ficou visível que a escritora tem toda uma propriedade para falar sobre o assunto e isso é ainda mais comprovado pelo vasto referencial bibliográfico que a autora utilizou. Então, passeamos pelo papel da mulher e suas ações desde o tempo da colonização, do império, da instituição da república. Vemos os avanços do papel feminino na sociedade sendo alcançados de forma tão lenta, pois desde sempre o home já exercia todos aqueles papéis menos o de gestar uma criança. 

Também acompanhamos o desenvolver da liberdade feminina e a inversão de papéis no seio familiar que foi proporcionado por meio de revoluções femininas, lutas de classes e diminuição do preconceito. Ponto a favor. Mas com toda essa suposta liberdade também abrimos os olhos para novas formas de prisão como a busca da beleza, a vontade de não envelhecer, somos agora prisioneiros da aparência.
"O diagnóstico das revoluções femininas até o século XX é, por assim dizer, ambíguo. Ele aponta para conquistas, mas, também, para armadilhas. No campo da aparência, da sexualidade, do trabalho e da família houve conquistas, mas também frustrações. A tirania da perfeição física empurrou a mulher, não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação. A revolução sexual eclipsou-se frente aos riscos da AIDS. A profissionalização, se trouxe independência, trouxe também stress, fadiga e exaustão. A desestruturação familiar onerou sobretudo os dependentes mais indefesos: os filhos."
Fica claro que vilões e culpados sempre vão existir, mas que atualmente as mulheres já podem expressar suas opiniões, podem ser mães solteiras, viajar e independer se um marido, hoje as mulheres escolhem o amor e a liberdade de amar e fazer o que os homens sempre fizeram: trabalhar, ter seus amantes, etc.

Obviamente no meio de tantas evoluções do papel feminino na sociedade vemos, sim, os pontos positivos, mas também nos deparamos com tantos pontos negativos. Histórias e Conversas de Mulher é um livro fascinante, alertador.
"O sexo primava sobre o amor, e a hipocrisia implícita no modelo anterior do casamento era desqualificada. Questionávamos de várias maneiras a fidelidade e pregávamos com fervor a lealdade. Em outras palavras, apostamos tudo no gozo, sem desconfiar que este poderia nos escravizar. Na verdade, escapamos à repressão imposta às gerações anteriores, mas nos tornamos vítimas do nosso ideário. O homem era forçado a ter uma atividade sexual intensa, e a mulher, para demonstrar liberdade, precisava dizer sim a todas as propostas masculinas. Insensivelmente, passamos do sexo proibido ao sexo obrigatório."
Como mulher eu sempre procuro ler obras que retratem a mulher do jeito que é e não aquele modelo romântico e utópico que nunca existiu em tempo algum. Este livro é um verdadeiro choque, porque eu conhecendo o mundo que vivo, cheio de liberdades de pensamento e de expressão ler sobre as mulheres nossas antepassadas que eram praticamente escravas do marido, submissas e cujo papel era dar um filho varão é assustador o fato de termos demorado tantos séculos para buscar nossa liberdade.

Sem sombra de dúvida, para nos conhecermos melhor temos de conhecer nossas raízes e entender nossas motivações e anseios que surgiram lá num tempo remoto - o da colonização - e desconstruir discursos machistas muitas vezes arraigados em nossa criação por conta da cultura falocêntrica. Não estou dizendo que Histórias e Conversas de Mulher é um livro que fala sobre o feminismo, embora teça alguns comentários, mas Del Priore não faz um posicionamento, já que seu livro é de cunho bibliográfico, mas este livro se torna leitura obrigatória para podermos compreender melhor o movimento feminista e os fatores que o levaram a surgir e nos motivam ainda hoje a seguir levantando esta bandeira.

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