Resenha: "Canção de Ninar" de Leïla Slimani

Canção de Ninar, Leïla Slimani, São Paulo: TusQuets/Planeta, 2018, 192 pág.
Tradução: Sandra M. Stroparo
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Saudações Leitores!
Chanson Douce (2016) no Brasil Canção de Ninar é livro ganhador do Prêmio Goncourt 2016 e se trata do segundo livro da escritora franco-marroquina Leïla Slimani cujo primeiro é Dans le Jardin de l'Ogre (2014) não publicado no Brasil. Aliás, já fiz uma resenha desse livro em vídeo, sintam-se livres para conferir AQUI.

Este é o tipo de livro que logo na primeira página nos apresenta a cena de um crime brutal e chocante e, portanto, só iremos acompanhar tudo o que aconteceu antes para que culminasse naquilo que lemos, desse modo, vai-nos ser apresentado os fatos que levaram ao crime, como uma reconstituição dos mesmos.
"A mãe estava em choque. Foi o que disseram os bombeiros, o que repetiram os policiais, o que escreveram os jornalistas. Ao entrar no quarto onde jaziam os filhos, ela soltou um grito, um grito das profundezas, um uivo de loba. As paredes tremeram."
Canção de Ninar é o tipo de livro que nos choca por ter sido baseado em fato real, fato esse que já lemos ou já vimos nos jornais diversas vezes e nos mais diversos países, infelizmente, muito provavelmente poderá acontecer novamente quando menos se espera.

No entanto, Canção de Ninar não é um livro simples que trata de um crime, mas tem outros temas que vão merecer destaque e nos levar a reflexões profundas. Alguns deles são: o papel social de uma mãe, ou seja, a maternidade, e o quanto as mães muitas vezes tem que se anular em prol dos filhos - o que é visto como normal em nossa sociedade -, mas que pode levá-la a e se sentir frustrada por ter esse peso para carregar. Também vemos o papel de um pai e marido que acha que quem deve cuidar da casa e dos filhos é a mulher, uma visão tão enraizada e perpetuada pelo machismo que ainda hoje não conseguimos colocar para escanteio essa postura. O papel dos cuidadores e babás e como tal tarefa pode ser estressante, pouco valorizada e considerada uma obrigação.
"Quanto mais o tempo passa, mais Louise se sobressai na arte de se tornar, ao mesmo tempo, invisível e indispensável."
Durante minha leitura, confesso que fiquei bastante chocada com os sentimentos da mãe quando a autora, Leïla Slimani,  relata de forma tão pungente e crua que nos remetem a realidade de várias mães e é chocante porque temos a visão perpetuada de que a mãe tem que estar sempre feliz por cuidar de seus filhos, que é natural se desprender do trabalho e da vida social para a criação dos filhos, quando na realidade uma mãe está passando por uma verdadeira luta interior e pressão psicológica da sociedade.

"Ela não tinha ideia do que viria. Com duas crianças, tudo ficou mais complicado: fazer compras, dar banho, ir ao médico, fazer a faxina. As contas acumularam. Myriam ficou sombria. Começou a detestar as suas idas ao parque. Os dias de inverno pareciam intermináveis. Os caprichos de Mila a irritavam, os primeiros balbuciou de Adam lhe eram indiferentes. Ela sentia cada dia um pouco mais a necessidade de ficar sozinha e tinha vontade de gritar como uma louca na rua. Eles me devoram viva, pensava, às vezes." 
Os temas “pesados” não param por aí, ainda vamos ser apresentados à Louise, a babá perfeita, que foi violentada, teve uma vida difícil, sofreu perdas e ao longo da vida teve relações abusivas e unilaterais, a ponto de montar um mundo fantástico em sua cabeça, imaginar uma vida mais colorida e ficar transtornada quando tudo o que imaginou não era – realmente – a realidade tão sonhada. Uma hora a corda tinha que partir, infelizmente, o peso do mundo arrebentou esta corda. 

Canção de Ninar traz, sim, muitos temas como já citei, e isso inclui as expectativas que geramos pelas pessoas, todo o peso que colocamos em seus ombros quando não aceitamos quem são ou mesmo suas falhas, mas também nos faz refletir o quanto de culpa temos não só pelas nossas ações, mas também pelas ações de quem estão próximos a nós. Será que não temos culpa, quando somos omissos (fingimos não ver o sofrimento do outros), quando delegamos mais responsabilidades do que a pessoa é capaz de aguentar, ou quando maquiamos nossos preconceitos (e bullying) através e supostas palavras gentis e conversinhas pelas costas.
O fato é que era responsabilidade dos pais, no caso Myriam e Paul, a seleção de alguém capacitado para cuidar dos filhos e não apenas jogá-los para qualquer um cuidar, era responsabilidade dos pais avaliarem a pessoa que cuidava dos filhos e nisso percebemos que Myriam e Paul pecaram, pois ao longo do livro vemos sinais visíveis de que algo não estava bem com Louise, mas Paul e Myriam estavam tão ocupados com seus trabalhos e suas vidas que foram deixando passar as pistas, foram negligenciando a segurança dos filhos e após pintarem Louise como a babá perfeita era difícil enxergarem qualquer coisa diferente disso.

"Paul e Myriam são seduzidos por Louise, por seus traços lisos, seu sorriso franco, seus lábios que não tremem. Ela parece imperturbável. Tem o olhar de uma mulher que pode compreender e perdoar tudo. Seu rosto é como um mar calmo, de cujos abismos ninguém poderia suspeitar."
Fiquei realmente chocada com o livro, triste e tentando entender tudo. Realmente gostei de Canção de Ninar, mas também devo salientar que o final é bem aberto, só podemos supor o desenrolar do processo, aliás o livro segue um ritmo do começo ao fim e isso pode não agradar a todo tipo de leitor, pois há sempre a expectativa de ter um ponto alto uma solução, mas isso não acontece nesta obra.

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