Resenha: "Graça & Fúria" de Tracy Banghart

Graça & Fúria, Tracy Banghart, São Paulo: Seguinte, 2018, 304 pág
Tradução: Isadora Prospero
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Saudações Leitores!
Graça & Fúria (Grace and Fury) foi escrito pela norte americana Tracy Banghart, e se trata apenas de um primeiro volume que já me deixou cheia de empolgação para o volume seguinte. Esse volume, foi melhor do que eu imaginava que seria.

Quando li a sinopse desse livro já tive um abalo ao ver duas personagens femininas lutando por algo que acreditavam e contra um sistema abusivo e misógino. Claro que assim que tive o livro nas mãos (na verdade, a prova antecipada) comecei a ler imediatamente e não consegui mais soltar.

Já me senti impactada com a dedicatória do livro "A toda mulher que mandaram sentar e ficar quieta... e que se levantou mesmo assim", fiquei cheia de bons sentimentos a respeito da leitura e não me enganei, Graça & Fúria  foi exatamente o que eu esperava e um pouco mais.

"Em Viridia, as graças representavam os mais elevados padrões de beleza, elegância e obediência. Eram ao que todas as garotas deveriam aspirar."
O livro é empoderador, vamos acompanhar em capítulos alternados as irmãs Serina e Nomi, vale frisar que o livro todo é em terceira pessoa, essas jovens moram em Veridia, um país onde a monarquia impera totalmente e em que as mulheres são vistas como seres inferiores e completamente subjugadas aos homens. Em resumo: vivem.numa sociedade machista (não muito diferente da nossa, não é mesmo?).
"Se fosse escolhida por ele. Serina moraria em um lindo palácio pelo resto dos seus dias. Nunca teria que trabalhar em uma fábrica de tecidos como a mãe ou se tornar uma criada como a prima. Nem seria obrigada a casar com o homem que pagasse mais por sua mão. Iria a bailes deslumbrantes e nunca passaria necessidade. Nem sua família. Nomi poderia ter uma vida melhor, apesar de sua relutância. Como sua aia, poderia sair de Lanos também."
No entanto, em Viridia, todas as mulheres são ensinadas a se calarem, a se confirmarem com a situação e a aceitarem esse tipo de tratamento e governo, além do mais são ensinadas a almejarem ser Graças - que são mulheres escolhidas para serem acompanhantes do soberano, rei e seus herdeiros, quase como se fizessem parte do harém - portanto, desde novas elas aprendem como se comportarem bem e a aceitarem tudo com graça e delicadeza. 
Serina aceita o sistema, pois sempre foi criada por sua mãe para ser uma das candidatas à Graça, no entanto, Nomi, sua irmã mais nova vê o absurdo da situação, isso talvez se dê pelo fato de ter aprendido, secretamente, a ler com seu irmão Renzo (ler é algo altamente proibido para as mulheres) e tem algum discernimento sobre as diferenças erradas entre os homens e as mulheres. Nomi tem a alma rebelde, mesmo sendo mandada se calar constantemente.
"Não. Não é uma escolha quando você não tem liberdade de dizer não. Um "sim" não tem nenhum valor quando é a única resposta que se pode dar!"
Serina é enviada para ser possivelmente selecionada para ser uma das Graças do Herdeiro, mas por meio de alguns eventos quem é a escolhida é sua irmã Nomi (que na verdade tinha ido como aia de Serina). O mundo de Serina desmorona, mas a queda não para por aí, por um terrível mal entendido Serina é banida para as ilhas Monte Ruína,
Enquanto Serina, que foi criada para ser delicada, gentil, dócil, fiel e nunca questionar nada e nem lutar por nada, terá que aprender a viver sob um novo estilo de vida completamente adverso do que foi criada e ensinada desde criança, caso queira sobreviver; por outro lado, Nomi, completamente contra sua vontade e espírito rebelde, terá que viver enclausurada sobre as regras do Herdeiro, sendo sua propriedade, tendo que ser delicada e se sentindo culpada pelo destino da irmã.
"Ela já tinha ouvido histórias de mulheres que haviam tentado lutar - uma prima distante que tinha se defendido do marido abusivo, uma mulher na fábrica de tecidos que havia estapeado um homem quando ele tentara beijá-la. Todas tinham sido severamente punidas. Açoitadas, presas."
Tanto Serina, quando Nomi irão ver um novo mundo e ter que aprender a lidar com os muitos desafios de maneira eletrizante e aterrorizante também. É impossível não se questionar sobre em quem acreditar, sobre o que é verdade, sobre as ideologias apregoadas por uma minoria que detém o poder. Obviamente que no meio do percurso tem alguns clichês bem na cara e nada inéditos, pois nos remetem a acontecimentos de alguns outros livros, mas eu não tenho problemas com clichês, nunca tive, embora fique mais feliz quando um livro tem surpresas... E Graça & Fúria , apesar dos clichês tem várias surpresas e o melhor: reflexões.
Durante a leitura de Graça & Fúria  eu fiquei eletrizada e apaixonada pelas ideias e até mesmo pela forma direta da escritora Tracy Banghart ter escrito algo tão revelador. Amei a força e inteligência das personagens, confesso que também senti raiva tanto de Serina, por sua passividade, quanto por Nomi, e sua rebeldia sem limites e inconsequente, além de ser covarde em alguns momentos. Mas depois eu refleti que é difícil você ir contra aquilo que você foi ensinado como o correto desde a mais tenra idade, é imensuravelmente difícil também lidar com o novo, o inédito e os nossos medos. Fiquei com vontade de abraçar as personagens e dizer que elas estavam se saindo bem, mesmo com tão poucos recursos disponíveis para as mulheres nessa sociedade cruel de Viridia.
"A vida toda, ela tinha ouvido que as outras mulheres eram suas concorrentes. Sua mãe tinha repetido incontáveis vezes. Nunca confie em outra mulher. Nunca confie que não vai tentar tomar seu lugar como graça ou atrapalhar suas chances de conseguir um marido."
Se você ainda está em dúvida sobre ler ou não Graça & Fúria, vamos conversar mais um pouco aqui: esse livro é uma mistura incrível de A Seleção, Jogos Vorazes e Rainha Vermelha, cheio de reflexões feministas (de igualdade dos gêneros e não de superioridade, ok?), com ensinamentos reais e pertinentes sobre o empoderamento e as lutas que aquelas mulheres fictícias estão passando, mas que de uma forma nos remete para a luta real das mulheres no nosso mundo. O livro também fala muito sobre sororidade, pois é comum vermos o posto disso em nossa atualidade e isso promove mais uma discussão e reflexão altamente pertinente.
Graça & Fúria pode ser uma ficção e alguns podem lê-lo apenas como entretenimento, mas traz uma reflexão que está muito em destaque: a forma como a sociedade vê o feminino, como trata de forma diferente, como quer subjugar as mulheres só por conta do sexo e segundo dizem: fragilidade, a forma como as mulheres ainda não estão completamente unidas e se atacam sutilmente. Esse livro é, de fato, um arcabouço para inúmeras reflexões e debates, além de uma feliz forma de ensinar uma adolescente e jovem o real sentido do movimento feminista é empoderador dessa nova geração. 
"Tudo naquele mundo, até às prisões, colocavam as mulheres umas contra as outras enquanto os homens só observavam."
Meninos, também deveriam ler este livro e se colocarem no lugar dessas personagens: se fossem eles subjugados e anulados apenas por conta do sexo eles achariam justo, normal e correto? Esse livro é uma boa forma também de ensinar aos meninos o real sentido da igualdade dos gêneros que nada tem a ver com força, tem a ver com se colocar no lugar do outro. Lutar por igualdade.
"_Por que os deixamos fazer isso com a gente? Por que os deixamos nos quebrar? Nos fazer passar fome? Nos punir por sermos nós mesmas? É porque pensamos que somos flores delicadas? Não acho que somos o que eles querem. É por isso que estamos aqui, para começo de conversa. Não somos flores. Somos concreto e arame farpado. Somos feitas de ferro. Somos inteligentes e perigosas. Precisamos parar de nos matar e lutar contra eles."

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