Resenha: "Kindred: Laços de Sangue" de Octavia E. Butler

Kindred: Laços de Sangue, Octavia E. Butler, São Paulo: Editora Morro Branco, 2017, 432 pág.
Tradução: Carolina Caires Coelho
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Saudações Leitores!
Kindred: Laços de Sangue foi originalmente publicado em 1979 e escrito pela consagrada escritora  afro-americana de ficção-científica feminista Octavia E. Butler. Butler é conhecida por abordar em seus livros temas como preconceito e racismo. No Brasil já temos outro livro da escritora traduzido: A Parábola do Semeador (originalmente publicado em 1995). A escritora, faleceu em 2006.
"A escravidão era um processo que matava pouco a pouco."
Uma das coisas que me chamaram muito atenção foi a editora ter mantido o título original: Kindred que significa parentesco, mas acrescentou um subtítulo para dar um sentido melhor para aqueles que não entenderiam o significado do título em um primeiro contato: Laços de Sangue. Tudo isso faz um sentido enorme dentro da obra.

Esse é um dos mais aclamados livros de ficção-científica da escritora, embora eu não tenha entendido muito bem essa denominação, mas talvez, para a época em que foi publicado essa categoria literária era mais coerente, no meu entender, parece mais um romance histórico com viagens no tempo.
"Todas as lutas são, essencialmente, lutas sobre poder."
Embora a denominação tenha me deixado conflituosa (não sou lá muito fã de ficção-científica), fiquei bastante surpreendida pelo conteúdo da obra e, considero realmente um livro valioso, com voz, importante e que vai, sim, incomodar diversos leitores trazendo uma sensação de náusea por conta do tema abordado e de algumas cenas que foram descritas da maneira mais real possível a ponto de fazer um leitor mais sensível sentir o estômago revirar.
Em Kindred: Laços de Sangue iremos acompanhar a narrativa contada em primeira pessoa pela personagem Dana, que aos 26 anos, está de mudança com o marido Kevin para um novo apartamento, mas repentinamente tem uma vertigem e vai parar à beira de um lago onde um menino está se afogando, após salvá-lo, Dana, se vê, de maneira inexplicável, de volta em seu novo apartamento, com o assombrado marido olhando o desaparecimento e o aparecimento da esposa.

Dana, uma jovem negra, vivendo nos anos de 1970, se vê incapaz de controlar essas vertigens e se dá conta que, quando desaparece, ela viaja no tempo para uma Maryland pré-Guerra Civil, isto é, no século XIX, um local totalmente perigoso para os negros, principalmente uma mulher, pois nessa época estavam vivendo uma "ditadura" escravocrata.
"Eu me lembrava da expressão dele ao surrar o escravo do campo. Não era uma expressão de raiva, de ódio, nem mesmo de interesse. Era como se estivesse partindo lenha. Ele não era sádico, mas não fugia de suas "tarefas" como dono da fazenda. Ele me surraria ate arrancar sangue se acreditasse que eu havia lhe dado motivo"
Nessa época histórica, os negros eram escravizados e viviam da forma mais desumana possível, totalmente a mercê dos seus senhores e dos capatazes. Portanto, Dana se vê em um "mundo" hostil, assustador e que tentam escravizá-la e roubar a todo o custo sua liberdade.
"Era por isso que eu estava aqui? Não apenas para garantir a sobrevivência de um menininho que sempre estava em perigo, mas também para garantir a sobrevivência de minha família, meu próprio nascimento?"
Como uma mulher independente, inteligente que é, Dana, percebe que essas viagens no tempo sempre acontecem quando um personagem, chamado Rufus, encontra-se em perigo de vida e ela precisa mantê-lo a salvo por conta de uma ligação de sangue, mas Rufus, não facilita as coisas para sua "salvadora" pois foi criado para ver os negros como uma subcategoria, como escravos, então é praticamente difícil fazê-lo pensar de maneira diferente.
Diante de todos esses perigos que Dana corre, inclusive perigo de morte, de todo o sofrimento que lhe é infligido por ser negra, ela ainda tem uma grande preocupação, pois numa dessas viagens no tempo ela acabou levando o marido junto consigo e isso pode até ter facilitado algumas coisas, mas lhe causou inúmeros outros problemas também.
"O homem me alcançou e me derrubou com tudo no chão. A princípio, fiquei paralisada, incapaz de me mexer nem de me defender, mesmo quando ele começou a me bater, a me socar. Nunca tinha apanhado daquele jeito antes, nunca pensei que poderia aguentar tanta agressão sem perder a consciência."
O fato é que em Kindred não existe uma explicação tão concreta para as viagens no tempo, apenas a ligação de sangue, mas nem isso dá para explicar direito, pois tem-se apenas meditações a respeito. Esse fato apesar de ser um pouco frustrante, não chega a desviar ou desvalorizar a obra, pelo contrário, o foco principal e que mais nos chama atenção é a abordagem da escravidão norte-americana, pois, particularmente, não consigo lembrar de nenhum livro que já tenha lido que aborde esse tema tão específico e de forma tão real e dolorosa.

O valor da obra não para por aí, Kindred foi escrito de uma forma bem fluída e de fácil compreensão, mas além de tratar sobre a escravidão, fala também sobre como os próprios negros se enxergam, o próprio preconceito que os negros tinham com os brancos, os brancos com os negros, os negros com os negros por terem "amizade" com os bracos etc., parece ser algo recíproco, mas que na história esse preconceito foi maximizado de ambos os lados por conta da escravidão. Afinal, ninguém nasce preconceituoso, isso é um comportamento adquirido. 
Kindred pode até parecer um pouco simplista em algumas partes, afinal como não ficar chocado e achar incoerente o fato de Dana não saber quase nada sobre a época da escravidão? Principalmente se levarmos em conta que a personagem era uma escritora, portanto bastante instruída, era negra e sua própria família tinha um certo preconceito por ela ter se casado com Kevin e ele ser branco. Só que essas incoerências que presenciamos na narrativa, não prejudicam em nada o real foco do livro que é abordar, de fato o preconceito, o racismo e a escravidão.

Fica claro que a escravidão é escravidão em qualquer país e os negros viviam e passavam por situações sub-humanas, de humilhação, maus tratados, considerados objetos, tudo isso, unicamente, por conta de sua cor. É bastante trágico e vergonhoso o ser humano (no caso: o branco) ter praticado tamanho ato de injustiça, sem justificativa coerente. Nada do que eles alegassem poderia justificar um ato desses: tirar a liberdade, punir, matar um outro ser vivo por ser negro.
"Não se envergonhava de estuprar uma negra, mas se envergonhava de amar uma negra."
As cenas de violência contra os escravos, estupros etc. me deixaram absolutamente chocada e com o coração devastado. Dói-me pensar em tudo isso, contudo, acho importante nos lembrarmos de fatos assim para que sirvam de lembrete para que não retrocedamos. Embora ache que, atualmente, estamos retrocedendo: pessoas matando e violentando umas as outras por tão pouco. Portanto, Kindred é um livro bem atual, mesmo após tantos anos de sua publicação.
O preconceito existe, violência, estupros, escravidão e injustiças, mas hoje não tem mais respaldo da lei, embora a lei não seja tão eficiente, já é um passo, já conquistou-se algumas vitórias a esse respeito, embora a prática ainda deixe muito a desejar, pois sofremos, ainda, reflexos desse pensamento escravista e preconceituoso em nossa contemporaneidade.
"O pai dele não era o monstro que poderia ser com o poder que tinha sobre os escravos. Não era um mostro, de forma alguma. Só um homem comum que as vezes fazia coisas monstruosas que sua sociedade dizía serem legais e adequadas. Mas eu não tinha visto senso de justiça nenhum nele. Agia como bem entendia. Se alguém dizia que não estava sendo justo, ele chicoteava a pessoa por responder."
Estou feliz por ter conhecido, ter lido Kindred: Laços de Sangue, pois foi uma leitura que me fez questionar e pensar muito sobre diversos aspectos abordados, confesso que só o li este ano porque coloquei o volume como um dos livros que queria ler em 2018, mas nunca esperei me surpreender tanto, me emocionar e ficar tão sensível durante a leitura.
Fico refletindo sobre a história mundial e quanto mais penso a respeito acredito que duas situações que a humanidade mais deveria se envergonhar são as da escravidão e a do holocausto, pois foram situações impostas por seres humanos a outros seres humanos, humilhações e experiências desumanas, além dos assassinatos, extermínios, estupros e sabe-se lá Deus quais outras atrocidades aconteceram nesse período que ainda hoje não foram reveladas.

Dói muito saber que o ser humano é capaz de tamanha crueldade: maltratar e matar outras pessoas por algo como uma ideia preconceituosa e condicionada. Lamentável. Mais lamentável ainda é que, infelizmente, ainda estamos vivendo resquícios dessas culturas absurdas de uma pureza e superioridade de raças. Isso tudo juntando com a luta pelo poder e a riqueza me parecem bastante destrutíveis.
"Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco."
Apesar de gostar de ler livros fortes, denunciadores, ficções-reais, fico muito perturbada com as cenas, vez e outra preciso parar e tomar fôlego para seguir a leitura e isso aconteceu em diversas passagens de Kindred. Além disso esse é o tipo de livro que precisamos parar para processar os sentimentos e nos colocar no lugar daquilo que estamos lendo para fortificar a impressão da leitura, sabe? Sem sombra de dúvida, quando terminamos a leitura ficamos pensando no volume por vários dias e apesar de trazer um tema pesado acredito ser uma leitura imprescindível.

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