Resenha: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes - Suzanne Collins

quinta-feira, outubro 08, 2020

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, Suzanne Collins. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores. 2020, 576 págs.
Tradução: Regiane Winarski
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Saudações Leitores!
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (The Ballad of Songbirds and Snakes, 2020), escrito pela best-seller Suzanne Collins autora da famosa trilogia distópica Jogos Vorazes, trata-se de um prequel da famosa trilogia, sendo assim, se passa 10 anos pós-guerra entre os distritos e a Capital de Panem e, por isso, ainda podemos considerar um período de consolidação de Panem e os alicerces para o "purgatório" dos Jogos Vorazes, de modo que esta narrativa se passa mais de 60 anos antes da história  que acompanhamos na Trilogia Jogos Vorazes.

É diante dessa perspectiva que nos deparamos com um empecilho para nos interessarmos por A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, pois aqui iremos acompanhar ninguém menos do que um dos vilões mais tenebrosos da literatura: Coliolanus Snow, o futuro presidente Snow de Panem.

Já comecei esse veredito mencionando isso, porque já vi muita reviews de leitores que odiaram o enredo porque realmente não dá para se conectar com Snow, mesmo que aqui ele seja jovem e, de certo modo, concordo que haviam outros personagens mais interessantes para se acompanhar. Por outro lado, também achei a "sacada" de Suzanne Collins genial: trazer a história do vilão, mostrar sua essência e, ao contrário do que muitas pessoas argumentam, não acho que Collins tentou humanizar ou vitimizar Snow, mas mostrar que todas as pessoas tem o bem e o mal dentro de si e o que define o lado vencedor são as escolhas que fazemos ao longo do caminho.


Acho impossível torcer por Snow durante o livro, sobretudo quando sabemos quem ele se tornou, mas acompanhar a história dele foi bem fascinante, ver como ele ia se corrompendo por medo ou por querer ser quem não era, por querer e almejar sempre o poder, foi bem interessante, pois é isso o que o poder faz: corrompe as pessoas e é muito raro alguém ter forças ou a coragem o suficiente para não sucumbir. Além disso conhecer mais sobre Panem no pós-guerra e ver como eles lidavam com os Jogos Vorazes foi incrível, porque na trilogia original temos uma visão melhor sore como os tributos viam: seja para alavancar suas carreiras ou como uma forma de tortura, desumanização e humilhação dos tributos e distritos.

Portanto, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes traz Coriolanus na escola assumindo, junto com outros colegas, o desafio de ser um mentor nos Jogos Vorazes e torná-lo uma atração para os telespectadores, pois a ideia dos idealizadores dos jogos é tornar o evento algo mais atraente, tendo em vista que ninguém de Panem ou dos distritos se mostra interessado em acompanhar o "show de horrores".

Às vezes, Coriolanus se perguntava se os detritos foram deixados para lembrar aos cidadãos o que eles haviam aguentado. As pessoas tinham memória curta. Elas precisavam andar envolta dos destroços, pegar cupons de racionamento de alimentação e assistir aos Jogos Vorazes para que a guerra permanecesse viva na mente. Esquecer podia levar à complacência, e aí todos estariam de volta à estaca zero.


Então, estamos na 10ª edição dos Jogos Vorazes e o evento tem coisas semelhantes ao que conhecemos (como a escolha de um tributo do sexo masculino e feminino de cada distrito), mas também tem coisas diferentes como o fato dos tributos serem tratados como animais e postos em jaulas de um zoológico para que as pessoas possam visitar, enquanto eles passam fome e são humilhados até o dia de serem, praticamente, jogados na arena para matarem uns aos outros ou morrerem de inanição.

Nesse ínterim, sabemos que Coriolanus vive de aparências, ou seja, se fingindo de rico, pois os Snows eram ricos, mas após um investimento na guerra, sua família faliu, porém Coriolanus, sua prima Tigris e sua avó tentando fingir que a guerra não afetou suas finanças, e até conseguem fazer isso muito bem, pois Coriolanus é muito perspicaz, inteligente, astuto e desde cedo aprendeu a manipular as pessoas.

Então, quando Coriolanus consegue ser mentor nos Jogos Vorazes ele tenta usar essa oportunidade para alavancar sua vida e conquistar uma bolsa na faculdade, no entanto, na seleção dos tributos ele fica responsável pela tributo feminina do distrito 13, chamada Lucy, e acredita que ela logo vai morrer, pois é frágil, entretanto, tal como Snow ela é bastante inteligente e sagaz, a ponto de utilizar seus talentos com a música para chamar atenção de toda Panem e cativar patrocinadores para os Jogos Vorazes.

Havia vinte e quatro tributos, um garoto e uma garota de cada um dos distritos derrotados, sorteados para serem jogados em uma arena e lutarem até a morte nos Jogos Vorazes. Estava descrito no Tratado da Traição que encerrou os Dias Escuros da rebelião dos distritos, uma das muitas punições dadas aos rebeldes. Como no passado, os tributos seriam colocados na Arena da Capital, anfiteatro agora em ruínas que tinha sido usado para eventos de esporte e entretenimento antes da guerra, junto com algumas armas para quê matassem uns aos outros. A Capital encorajava que as pessoas assistissem, mas muita gente evitava. O desafio era tornar o evento mais atraente.


Digamos que Snow teve sorte por ter ficado como mentor de Lucy, pois ela realmente consegue chamar atenção de todos e, consequentemente, ela caba ganhando popularidade, porém, Coriolanus também começa a ter sentimentos com Lucy e isso entra em choque, pois ele tem medo de que ela morra, quer ajudá-la, mas também quer utilizá-la para sua escalada social.

É perceptível que, desde o começo, Lucy não é tão ingênua, mas que toda a situação pela quais os tributos são expostos acaba favorecendo uma conexão entre Lucy e Coriolanus, algo sem precedentes.

Nesse ínterim, apesar de ter boas ideias e ajudar a Capital, Snow também passa por vários problemas na escola e também com a idealizadora dos jogos, a dra. Gaul, que era praticamente uma terrorista, então aqui já temos uma boa noção quem foi a referência de Snow para sua vida.

Ele escondeu a cabeça nas mãos, confuso, com raiva e, mais do que tudo, com medo. Com medo da dra. Gaul. Com medo da Capital. Com medo de tudo.Se as pessoas que deveriam proteger brincavam com tanta facilidade com sua vida... como é que se sobrevivia? Não confiando nelas, isso era certo. E se não dava para confiar nelas, em quem dava para confiar? Impossível saber.

Várias coisas realmente me chamara atenção em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes porque este livro está longe de ser apenas sobre o Snow, mas sim sobre um tipo de governo e sobre a alienação e controle de pessoas e isso é fenomenal, porque Suzanne Collins brilhou em suas propostas de reflexão sobre politica, sociologia, ética, moral, filosofia e muito mais. É fundamentalmente um livro que fala sobre a natureza humana.

Como Coriolanus se tornou o frio presidente Snow é uma visão assustadora, nojenta e asquerosa, em vários momentos ficava com meu estômago revirado com os pensamentos dele, com suas ações e com toda a desconfiança que ele tinha sobre tudo e todos, como ele se aproveitava das pessoas também era assustador, mesmo quando ele tinha sentimentos de culpa ele manipulava e controlava tudo e todos. É horrível ver isso! Sem dúvida, falei muito palavrão lendo esse livro, nem quando ele estava passando por provações e conflitos éticos e morais consegui empatizar, porque ele sempre encontrava um jeito de usar tudo a seu favor.


Sobre a leitura de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes não vou dizer que foi 100%, pois não foi, li com muito frenesi as duas primeiras partes do livro, mas quando cheguei na terceira parte, que foi uma das mais chocantes, também foi uma das mais penosas, mais detalhista e minuciosa. Eu entendo os motivos para ser mais lenta, pois é nessa parte que vemos Snow se tornando a pessoa horrível que é, deixando suas vulnerabilidades de lado e ficando cada vez mais paranoico, sendo incapaz de confiar em ninguém.

O que aconteceu na arena? Aquilo é a humanidade despida. Os tributos. E você também. Como a civilização desaparece rapidamente. Todas as suas boas maneiras, a educação, a formação da família, tudo de que você se orgulha, arrancado no piscar de olhos, revelando o que você realmente é. Um menino com um porrete que bate em outra até matá-lo. Isso é a humanidade em seu estado natural.

É na terceira parte desse livro que temos uma verdadeira revelação de como Snow se tornou desumano e que isso não foi da noite para o dia, ele já era perverso, egoísta, interesseiro e foi sendo modelado por esse instinto de querer viver de aparência, de ser quem não é e almejar o poder mais que tudo para usá-lo em benefício próprio e não para ajudar aos outros. Claro que também temos que levar em consideração algumas pessoas que entraram em sua vida e foram peças fundamentais para a construção dessa personalidade horrível, sim, dra. Gaul foi a pior pessoa que poderia ter aparecido na vida do Snow, mas não é só culpa dela, ele já era essencialmente ruim então ele teria dado um jeito de ser desumano de qualquer forma, mesmo que não fosse por esse caminho.

Sinceramente? Eu amei A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes e só não dei cinco estrelas porque achei a terceira parte bem lenta e isso me fez arrastar o finalzinha da leitura por vários dias, mas no final bati palmas para Suzanne Collins que foi brilhante em seu livro. Além disso fiquei bastante encucada se as pessoas que não gostaram do livro tinham lido o mesmo livro que eu, por que eu realmente gostei e sei que ainda vou processar muitos detalhes dessa leitura após concluir esse veredito que, à propósito, demorei muito para escrever por querer processar tudo, mas sei que ainda tem muito mais para processar.

Os Jogos Vorazes são um lembrete dos monstros que somos e que precisamos da Capital pra nos proteger do caos.

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