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Resenha: Quem tem Medo do Feminismo Negro? - Djamila Ribeiro

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Quem tem Medo do Feminismo Negro?, Djamila Ribeiro, 
São Paulo: Companhia das Letras, 201, 152 pág.
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Saudações Leitores!
Quem tem Medo do Feminismo Negro? trata-se de uma coletânea com 34 artigos escritos pela filosofa, feminista e ativista Djamila Ribeiro e publicados originalmente no blog Carta Capital, o livro é uma verdadeira prestação de serviço à nossa sociedade, pois ao usar seus conhecimentos e estudos, a escritora, dá voz aos que foram historicamente oprimidos, a fim de que todos que buscam por uma real igualdade (utopizada pela nossa constituição) poderem repensar suas opiniões e pensar em soluções para mudar o futuro de toda uma classe sendo autores do próprio futuro.

Por originalmente terem sido escritos para vincularem em um blog os textos são curtos, mas bastante objetivos, isto é, Djamila Ribeiro evita rodeios e vai direto ao ponto que se propôs escrever. E vou logo alertá-los: O livro é um baita tapa na cara de tão impactante que é. SÓ LI VERDADES.
"A pessoa achar que machismo não existe não muda o fato de que a cada cinco minutos uma mulher é agredida no Brasil segundo o mesmo Mapa da Violência. São mulheres sendo mortas pelo simples fato de serem mulheres. Ser crítico é uma coisa, desonestidade intelectual é outra, e é absolutamente impossível debater com inverdades. Além de mostrar um claro desrespeito com quem pesquisa, milita e vivencia as opressões na pele."
Como amo temáticas feministas, mas me considero muito leiga nessa área, procuro sempre ler e me informar, portanto, Quem tem Medo do Feminismo Negro?  foi uma verdadeira introdução para o feminismo negro e interseccional, que eu não tinha conhecimento amplo, e isso tudo Djamila Ribeiro faz usando vários casos reais contemporâneos e contextualizados, mostrando que existe uma intersecção entre o ser mulher e a raça, fazendo com que uma série de preconceitos e machismos se intensifiquem ainda mais com o racismo que a mulheres negras sofreram e - infelizmente - ainda sofrem. É REAL. 
"Querer se valer do discurso da liberdade de expressão para destilar racismo, machismo, transfobia ou se esconder por trás do argumento "É minha opinião" é criminoso. Racismo é racismo, machismo é machismo, mesmo que venha na forma de opinião. E devem ser combatidos."
Mas o que de fato é e para que serve tudo isso? Termos conhecimento e abrirmos os olhos sobre o machismo e preconceitos que as mulheres brancas sofrem é importantíssimo, mas não podemos esquecer que as mulheres negras vivem essas tristes experiências de uma forma diferente, bem como as lésbicas, as trans... etc. Esse entendimento é mais do que tudo uma prática da REAL Sororidade.
De fato, precisamos parar de "achar" que falar de outras intersecções do feminismo - como o feminismo negro - é uma forma de dividir o movimento feminista, pois não é. Quando alegamos uma luta em prol de um objetivo comum afirmamos que ao alcançá-lo TODAS estarão se beneficiando, mas isso ainda é bem utópico quando avaliamos os fatos na vida cotidiana, como a própria Djamila alertou, a história prova o contrário: quando as mulheres brancas lutavam pelo sufrágio as mulheres negras lutavam para serem vistas como seres humanos.

Em toda a nossa história é sabido que a população branca sempre teve mais privilégios sobre a população negra e isso também acontece quando falamos de mulheres brancas e mulheres negras. Não adianta negar, ou falar que racismo não existe, que tais preconceitos não são vistos no nosso país, porque o Brasil, lamentavelmente, é um país racista.
"Algumas pessoas pensam que ser racista é somente matar, destratar com gravidade uma pessoa negra. Racismo é um sistema de opressão que visa negar direitos a um grupo, que cria uma ideologia de opressão a ele. Portanto, fingir-se de bom moço e não ouvir o que as mulheres negras estão dizendo para corroborar com o lugar que o racismo e o machismo criaram para a mulher negra é ser racista."
Não adianta nada afirmarmos que não somos racistas, não somos machistas, não somos preconceituosos, pois na maior parte das vezes essas afirmações são da boca para fora e que racismo, machismo e preconceito não são coisas que podem ser combatidas de um dia para o outro, é uma questão bastante cultural e é necessário muita leitura, muita informação para se tomar consciência disso e deixar de reproduzir tais coisas.
"Estereótipos são generalizações impostas a grupos sociais específicos, geralmente aqueles oprimidos. Na sociedade machista, impõe-se a criação de papéis de gêneros como forma de manutenção de poder, negando-se a humanidade às mulheres. Dizer por exemplo que mulheres são naturalmente maternais e que devem cuidar de afazeres domésticos naturaliza opressões que são construídas socialmente e que passam a mensagem de que o espaço público não é para elas. O mesmo ocorre com pessoas negras: a ideia de que toda negra sabe sambar ou que todo negro é bom de bola são estereótipos que têm por finalidade nos manter no lugar que a sociedade racista determina." 
Quem tem Medo do Feminismo Negro? foi um soco no estômago de preconceituosos, racistas, machistas e opressores que fazem isso de maneira proposital e até mesmo para quem faz de forma distraída, por ignorância, falta de conhecimento ou tato. 
Confesso que alguns pontos me incomodaram bastante, mas eu sei os motivos: cresci tendo uma visão completamente errada do feminismo, das diferenças raciais e sociais (alerto para o fato de que não condenem minha mãe, minha avó, etc, elas são tão vítimas quanto eu dessa cultura falocêntrica e opressora, pois essa condição social está enraizada em nossa criação de geração para geração, é sobretudo uma questão cultural, só que agora podemos mudar isso!), no entanto, fico absolutamente feliz por ter percebido essas falhas na minha formação como ser humano e, atualmente, estar buscando conhecimentos e moldando um pensamento mais justo e humanitário.
"O termo "empoderamento" muitas vezes é mal interpretado. Por vezes é entendido como algo individual ou a tomada de poder para se perpetuar opressões. Para o feminismo negro, possui um significado coletivo. Trata-se de empoderar a si e aos outros e colocar as mulheres como sujeitos ativos da mudança."
Posso ainda completar que o tal incomodo que falei vai além: se deve ao fato de eu ter me enxergado em alguns dos artigos como uma pessoa preconceituosa e racista por pura ignorância, falta de estudo e aprofundamento. Esse sentimento foi uma verdadeira provação: perceber que fui criada sob um discurso de igualdade e justiça quando ao mesmo tempo estava sendo moldada e sofrendo uma lavagem cerebral das ideologias dominantes para praticar a desigualdade e ver com diferença as pessoas. A sorte é que estamos em constante aprendizado e através de leituras como Quem tem Medo do Feminismo Negro? podemos conhecer o lado do outro e nos adaptarmos e moldarmos nossa visão, nos importarmos com a REAL IGUALDADE, além de praticarmos a empatia.
Finalizei a leitura de Quem tem Medo do Feminismo Negro? absolutamente feliz por ter conhecido a obra e por esta ter sido um livro completamente contextualizado com dados e relatos brasileiros. Eu simplesmente acho que TODOS PRECISAM LER ESSE LIVRO, ter esse choque de realidade, esse tapa na cara faz muito bem.
"É urgente que esses temas sejam debatidos e ensinados, e se estão incomodando é porque talvez estejamos no caminho da mudança."

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