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A Casa dos Espíritos - Isabel Allende (resenha)

segunda-feira, 23 de março de 2026

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A Casa dos Espíritos traz uma narrativa que fala do amor, mas ao virar das páginas também vemos a brutalidade da violência.

Saudações, Leitores!

Finalmente li uma obra da chilena Isabel Allende e comecei a experiência por seu livro de estreia: A Casa dos Espíritos (La Casa de los Espíritus, 1982). Isabel é uma autora que dispensa apresentações - pelo menos sempre ouvi falar dela. A autora é famosa por misturar em suas obras o que chamamos de realismo mágico e romances históricos. Inclusive, a escritora é sobrinha do ex-presidente do Chile: Salvador Allende, e este livro específico mistura memórias familiares, realismo mágico e muitos detalhes históricos da política do Chile.

A Casa dos Espíritos traz na trama a trajetória de várias gerações da família Trueba que mora em um país cujo nome não é mencionado nas páginas desse livro, no entanto, é possível reconhecer o mesmo percursos histórico e político do Chile. Essa narrativa começa com Rosa, a Bela, que é prometida em casamento a Esteban Trueba, um homem de temperamento violento e ambicioso, após o falecimento da noiva, vai para o interior a fim de reconstruir a propriedade de sua família: a fazenda Las Tres Marías. Depois de conquistar seu objetivo ele volta para a capital e vai até a família del Valle, pais de sua falecida noiva, pedir uma das filhas outras filhas da família, em casamento. É aí que ele casa com Clara del Valle.

Clara é uma menina tida como estranha, que move objetos com a mente e tem o dom da clarividência, isto é, prevê o futuro em seus cadernos de anotar a vida, mas após a tragedia com Rosa escolhe passar anos em silêncio, voltando a falar apenas quando previu seu casamento com Esteban Trueba. 

Com o casamento, Trueba constrói o casarão da esquina onde vai morar com Clara e este casarão será um cenário muito importante para toda a narrativa e, inclusive, será reformado incessantemente, refletindo o crescimento da família e os segredos escondidos entre suas paredes quase labirínticas já remetendo a esses segredos, enquanto os descendentes de Esteban, Nicholas, Jaime, Blanca e sua filha Alba, enfrentam os choques entre o conservadorismo do patriarca e os ideais revolucionários que começam a ferver no país chegando ao clímax com o golpe militar.

Vamos acompanhar essas gerações crescerem e se formarem física, emocional, social e politicamente enquanto também ficamos a par das transformações que ocorrem no país, como a energia, os carros, telefones... Tudo isso ricamente descrito por Allende de modo que parece que estamos vendo acontecer realmente, sabe?

No entanto. vou ser sincera com vocês: no início da leitura, achei tudo um pouco confuso. Tive que me adaptar ao estilo de narrativa, as descrições e os blocos de textos, pois não existe muitos diálogos no volume, embora consigamos saber o que cada personagem pensa e poderia responder ou falar, pois ficamos íntimos dos personagens.  Mas sem dúvida a quantidade de personagens e o estilo denso da Isabel Allende me deixaram um pouco perdida nas primeiras páginas. Todavia, depois que entendi a dinâmica da história, eu simplesmente amei! É uma leitura que exige fôlego. demorei ler porque precisava processar a história, mas todas as páginas nos apresenta uma conexão emocional raríssima. A forma como o realismo mágico se dissolve na crueldade da realidade histórica é algo que poucas autoras conseguem fazer com tanta maestria. Favoritei, com certeza!

Um dos pontos mais fascinantes do livro é a sua estrutura narrativa. A história é contada através de vozes distintas: temos o relato em primeira pessoa de Esteban Trueba, que traz sua visão subjetiva, muitas vezes machista e autoritária, sobre os eventos. Em contrapartida, há um narrador onisciente que, descobrimos depois, é a sua neta Alba, baseando-se nos cadernos de sua avó, Clara.

Essa alternância cria um jogo de perspectivas muito rico. Além disso, o tempo verbal oscila entre o passado (a memória) e o presente (a reconstrução histórica), dando a sensação de que o futuro já está escrito nos presságios de Clara, enquanto os personagens lutam para viver o seu "agora". É uma técnica que faz com que a gente sinta que a história já aconteceu, mas que ainda dói no presente. Inclusive eu até recomendo atenção para que durante a leitura você tente identificar essas "vozes narrativas", porque foi algo que demorei a "sacar" e acho que teria aproveitado mais se eu tivesse me "tocado" disso desde o início, até perceber essa estratégia narrativa, com certeza, devo ter perdido alguns detalhes.

Em A Casa dos EspíritosIsabel Allende traz um olhar distintamente feminino em que os "espíritos" (ou antepassados, aqueles que morreram ou que são vistos após a morte, como fantasmas) convivem com a reforma agrária, as greves e a tortura política. A casa funciona como uma metáfora para o próprio país: em constante reforma, assombrada pelo passado e dividida por ideologias.

Fiquei ainda mais empolgada ao ler A Casa dos Espíritos após descobrir que este livro nasceu de um momento de profunda dor e saudade. Isabel Allende começou a escrever o que seria originalmente uma carta de despedida para seu avô de 100 anos, que estava morrendo no Chile enquanto ela vivia no exílio na Venezuela. Como não podia visitá-lo, ela começou a relatar as memórias da família para garantir que aquelas histórias nunca fossem esquecidas, e esse material acabou se transformando no manuscrito do romance. Muito autobiográfico, não é mesmo? Nossa Isabel é quase uma Blanca Trueba!

Segundo minhas pesquisas, a realidade histórica é tão forte em A Casa dos Espíritos que muitos personagens são espelhos de figuras reais. Por exemplo, o personagem referido apenas como "O Candidato" ou "O Presidente" é uma clara alusão a Salvador Allende, tio da autora, morto durante o golpe militar de 1973. Até mesmo o misticismo tem raízes reais: a personagem Clara foi inspirada na avó de Isabel, que também afirmava ter poderes paranormais e mantinha diários detalhados, assim como o cão Barrabás, que realmente existiu na infância da escritora.

Outro ponto que me encantou nesse livro é que o seu início e fim são os mesmos, dando também a impressão de um ciclo, algo que só uma história é capaz: reviver os fatos a cada leitura, como se aquilo fosse algo que sempre se repetisse a cada leitura das pessoas, como se aquela casa e todos os que passaram por ela fosse sempre existir como espíritos.

Já deu para perceber que amei A Casa dos Espíritos, não é mesmo? Terminei a leitura com a sensação de ter vivido várias vidas! Então fica aqui minha recomendação, este livro traz uma narrativa que permeia o amor mais puro até a brutalidade da violência, um livro absolutamente intenso!

A propósito, vai ter adaptação em série desse livro pela Prime Vídeo com previsão de lançamento para o dia 29 de Abril. Já quero assistir!

Obrigada por lerem até aqui e até a próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: La Casa de los Espíritos
Autor: Isabel Allende
Tradutor: Carlos Martins Pereira
Gênero: Ficção Realismo Mágico. Histórico.
Editora: Bertrand Brasil
Ano: 1998-2023 | 505 págs.
País de Origem: Chile/Peru
Classificação: +15
Aviso de Conteúdo: Envenenamento. Estupro. Assassinato de Animal. Decapitação. Acidente de carro. Golpe Militar. Assassinato. Estupro. Tortura. Ditadura.
Minha avaliação: 
⭐⭐⭐⭐⭐❤️ (5/5)
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