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Emburrecimento Programado - John Taylor Gatto (resenha)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

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Emburrecimento Programado é polêmico, reflexivo e assustador ao mesmo tempo, mas necessário!

Saudações, Leitores!

Emburrecimento Programado: O Currículo Oculto da Escolarização Obrigatória (Dumbing Us Down: The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling, 1992) escrito pelo norte-americano John Taylor Gatto foi um livro que me chamou atenção pelo título que apareceu como sugestão na Amazon e resolvi "arriscar" comprar e ler: Que grata surpresa! Claro que Gatto foi audacioso, corajoso polêmico e irreverente, mas só se é considerado tudo isso alguém que desmascara e fala de coisas reais e disruptivas, coisas que muitas vezes não pensamos ou ousamos parar para pensar porque incorremos no risco de seguir o caminho oposto ao "esperançar" que seria o desesperançar.

John Taylor Gatto foi um professor premiado e conhecido por suas críticas ao sistema educacional tradicional, a longo de sua carreira, publicou obras como Armas de Instrução em MassaThe Underground History of American Education e A Different Kind of Teacher, todas marcadas por questionamentos sobre os rumos da educação formal. Sem dúvida sua escrita é provocativa e, por vezes, controversa e polêmica, ao passo que é instigante para quem se interessa em refletir sobre a escola para além das práticas automáticas do cotidiano.

Aqui quero fazer uma observação: sei que, atualmente, não há mais uma inspiração por  conhecimentos de pessoas mais velhas, porque hoje a "influência" que se recebe são de pessoas jovens e muitas vezes vem com seus "achismos", não que esse tipo de consideração não mereça ser validado, mas a experiência e o conhecimento de um sistema (só quem conhece é quem já viveu ou está entranhado nele) valem bastante, portanto, não me venham dizer que Gatto era um professor gagá aposentado, isso não me entra na cabeça, ele era um homem que ao viver no sistema, assim como todos nós que estamos lá, desesperançamos cada vez mais e facilmente podemos reconhecer tudo isso que ele mencionou. Dito isso, vamos lá:

Em Emburrecimento Programado, o professor reúne 5 ensaios que se originaram de momentos de premiações que recebia e palestras que dava, são eles: 1. O Professor de Sete Lições; 2. A Escola Psicopata; 3. O Esverdeado Monobgahela; 4. Precisamos de Menos Escola, não mais; e 5. O Princípio Congregacional. Não se assustem com os temas, pois são provocantes, mas quando ele argumenta sobre eles é explicitado o que ele quer dizer, ok? Cada ensaio desses observamos o autor defender a ideia de que a escola moderna não foi criada prioritariamente para desenvolver indivíduos autônomos e críticos, mas para formar sujeitos obedientes, previsíveis e facilmente adaptáveis às demandas da sociedade, ou seja, as escolas são o que podemos dizer um instrumento de controle de massas.

O autor questiona práticas que consideramos naturais dentro do ambiente escolar, como a fragmentação do conhecimento em disciplinas, o controle rígido do tempo, a excessiva dependência de avaliações e a pouca autonomia concedida aos estudantes durante seu processo de aprendizagem, além da limitação de convivência social tão necessária para formação de outros valores, inclusive questionando a divisão por faixa etária, fazendo com que cada estudante tenha mais contato com pessoas da mesma idade, desconsiderando outras visões de pessoas mais novas e mais velhas. Uma vivência baseada num recorte de tempo apenas presente. Para além disso ele também critica a divisão de níveis nas escolas com base nas avaliações, o que já direciona o sujeito para a estratificação das classes sociais desde a escola.

Ao longo do livro, somos convidados a refletir sobre criatividade, liberdade intelectual, pensamento crítico, responsabilidade individual e sobre o papel que a escola desempenha na formação das novas gerações. Embora o contexto analisado por Gatto seja o norte-americano, muitas das situações descritas encontram ecos em diversas realidades educacionais, talvez do mundo todo. O autor constrói um retrato que pode incomodar justamente porque revela aspectos da educação que, muitas vezes, preferimos não enxergar ou simplesmente naturalizamos ao longo do tempo, pois fomos criados dentro desse sistema.

No geral, gostei bastante da leitura. Mesmo tendo sido publicado há mais de três décadas, impressiona perceber como muitas das críticas feitas por Gatto ainda permanecem atuais. Em vários momentos me peguei concordando com suas observações sobre a burocratização do ensino, a valorização excessiva da memorização e as dificuldades que a escola enfrenta para promover uma aprendizagem verdadeiramente significativa. Como profissional da educação, também achei interessante perceber o quanto algumas reflexões dialogam com discussões que continuam presentes hoje, especialmente quando pensamos em inclusão, diversidade de aprendizagens e respeito às singularidades dos estudantes e o quanto o sistema educacional ainda não está preparado porque segue a lógica de padronização.

Outro ponto que me faz refletir e que concordo com Gatto é que a escola está falhando, estamos criando jovens individualistas, egocêntricos e consumistas. Os escolarizados não estão mais bem educados e nem mais inteligentes, mesmo com tanto investimento na educação, pelo contrário, estudos recentes provam que o QI da geração atual está em declínio, no entanto todos estão escolarizados. E o que os controladores da rede operacional justifica para essa falha? Falta de investimento! Será mesmo?

No entanto, em Emburrecimento Programado, também encontrei pontos com os quais discordo. Em alguns momentos, o autor parece adotar uma postura excessivamente pessimista em relação à escola, como se toda a estrutura educacional estivesse inevitavelmente fadada ao fracasso, porém eu acredito que para vivermos em  sociedade é necessário passar conhecimentos gerais, é necessário normas e por vivermos em um mundo capitalista a ideia de consumo já é impregnada nas crianças, por isso percebi que a crítica de Gatto vai além da esfera educacional e vai para o próprio sistema capitalista, o que é pertinente criticarmos também, já que a escola é um negócio.

A crítica que ele tece sobre as redes operacionais, a fragmentação de valores e união também me pareceram absolutamente reais e ainda hoje é assim, mas como mudar? A alternativa do autor em indicar o homeschooling pode ser boa, mas não me parece ser uma opção para todos, não no mundo em que vivemos e não podemos fugir dessa realidade, por mais triste que seja. Mesmo reconhecendo as verdades inerentes ao discurso do professor, há trechos em que o tom do livro se aproxima de certo sensacionalismo e de utopia para o cenário atual, o que pode enfraquecer parte da argumentação. Ainda assim, mesmo quando exagera, Gatto consegue provocar reflexões importantes e necessárias.

Uma das coisas que mais me chamou atenção nessa leitura foi o desconforto. Não porque concordei com tudo o que o autor escreveu, mas porque muitas de suas críticas nos obrigam a olhar para a educação de forma menos romantizada e até questionar se a forma como penso não seria uma espécie de "lavagem cerebral", pois sou fruto dessa educação como rede operacional, então passivamente posso concordar com ela por conta disso, entende? Como educadora, percebi que várias questões levantadas por ele continuam presentes em nossas escolas, ainda que sob novas formas e novos discursos. Ao mesmo tempo, acredito que a educação contemporânea também avançou significativamente em aspectos que o autor talvez não pudesse prever quando escreveu a obra, mas também adentrou-se novos desafios, principalmente com a internet e os celulares fazendo parte do cotidiano de adultos, adolescentes, crianças e bebês, moldando todo um pensamento e ideias que nem sempre são isentas de ideologias de quem se encontra no poder.

Recomendo Emburrecimento Programado? Definitivamente SIM, principalmente para professores, pedagogos, psicopedagogos, estudantes das áreas da educação e para qualquer pessoa interessada em compreender os mecanismos que estruturam a escola moderna, é importante que mesmo estando incrustrados dentro desse sistema tenhamos consciência de seus mecanismos. 

Espero que tenham gostado da resenha! Muito obrigada pela leitura e até a próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Dumbing Us Down: The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling
Autor: John Taylor Gatto
Tradutor: Leonardo Araújo
Gênero: Teoria Educacional.
Editora: Kirion
Ano: 1992-2019 | 136 págs.
País de Origem: Estados Unidos
Classificação: +14
Aviso de Conteúdo: -
Minha avaliação: 
⭐⭐⭐⭐ (4/5)
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