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Quem Matou Meu Pai - Édouard Louis (resenha)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

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Quem Matou Meu Pai é um livro potente que merece ser lido e discutido ou pelo menos refletido, mesmo que não se concorde com todas as críticas ou se pense absolutamente diferente, o que importa é escutar um outro lado de uma mesma história

Saudações, Leitores!

Depois de ter ficado impactada com O Fim de Eddy tive que ler outro livro do jovem e aclamado escritor francês Édouard Louis para ter uma visão mais ampla da escrita do autor que vem se destacando por trazer à tona uma literatura autobiográfica de uma maneira diferente, expondo as feridas abertas da classe trabalhadora. Foi assim que cheguei a Quem Matou Meu Pai (Qui a tué mon père?, 2023), um ensaio que consolida o autor como uma voz que desafia as estruturas tradicionais ao transformar a dor pessoal em um manifesto político e social.

Quem leu primeiro O Fim de Eddy e depois Quem Matou Meu Pai não vai se deparar com um enredo novo, pois temos a rememoração de alguns acontecimentos já conhecidos pela outra leitura, porém, o autor aqui vai trabalhar com outras percepções, emoções e nuances, pois anteriormente o foco era em Eddy e agora é no Pai.

Dessa maneira, temos uma espécie de biografia, ensaio político e acerto de contas familiar que são delineados de forma sutil, mas profundamente reverberante. O enredo se constrói em torno do reencontro do autor com seu pai, um homem não tão idoso, mas que se encontra fisicamente destruído, dependente de aparelhos para respirar e andar, após sofrer um grave acidente de trabalho em uma fábrica e ter perdido aquele emprego, a esposa, se afastado dos filhos e se encontrar numa condição em que trabalhar lhe causa uma dor física extrema e por isso tem que sobreviver de auxílio do governo, o pouco que lhe é assistido e tirado paulatinamente.

A engrenagem que realmente movimenta o ensaio é a mudança de perspectiva do narrador, em vez de focar apenas no ressentimento do passado, dos preconceitos que Eddy sofreu, o autor passa a analisar a vida do pai sob a ótica das influências internas e externas do meio em que ele estava inserido desde o nascimento. Quem acompanha os personagens vai percebendo que a brutalidade e o machismo daquele pai eram, na verdade, uma cultura passada por gerações e uma forma de máscara para esconder suas próprias frustrações e a escassez de perspectivas, uma vida que se repetia por gerações, sem mudanças ou ascensão social. As temáticas abordadas abrangem, com muita força de identificação, a masculinidade tóxica, a exclusão social e a destruição dos corpos da classe operária pelo descaso sistêmico.

Mais do que uma memória familiar, a obra se transforma em um tribunal quando o autor nomeia diretamente os responsáveis pela degradação física de seu pai e isso é uma atitude corajosa do autor. Louis analisa como as reformas políticas e os cortes de subsídios estatais operados por diferentes governantes franceses afetaram diretamente a saúde e a dignidade de sua família, privando o pai de tratamentos básicos e forçando-o a voltar a trabalhar mesmo incapacitado. 

Fica evidente em todos os momentos desse ensaio que a vida das pessoas afetadas pelas leis não é fácil, e, especificamente, nessa história, percebemos que o psicológico e o físico do pai e do filho foram afetados de inúmeras maneiras no decorrer do tempo pelas decisões de indivíduos que vivem em uma realidade totalmente apartada da deles, mas que estão no poder e, consequentemente, decidem politicamente o que vai acontecer com a maioria da parte trabalhadora.

Achei a narrativa absolutamente visceral e reflexiva, a escrita de Édouard Louis é um soco no estômago; ele consegue transformar o sofrimento em criticidade social com uma urgência que não nos deixa soltar o volume (eu sei que aqui temos um livro de bolso quem em poucas horas dá para ler, pois tem bem menos de 100 páginas).

Definitivamente, Quem Matou Meu Pai é um livro potente que merece ser lido e discutido ou pelo menos refletido, mesmo que não se concorde com todas as críticas ou se pense absolutamente diferente, o que importa é escutar um outro lado de uma mesma história, pois pela experiência e vivências outras construirmos o próprio pensamento. Ele é altamente recomendado para quem busca uma literatura com forte teor de denúncia social.

Espero que tenha gostado da resenha e das reflexões que esta obra nos provoca, obrigada por ler e até a próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Qui a tué mon père?
Autor: Édouard Louis
Tradutor: Marília Scalzo
Gênero: Ensaio
Editora: Todavia
Ano: 2023 | 72 págs.
País de Origem: França
Classificação: +14
Aviso de Conteúdo: Homofobia. Preconceito. Capacitismo. Desemprego. Violência.
Minha avaliação: 
⭐⭐⭐⭐ (4/5)
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