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Vozes de Tchernóbil - Svetlana Aleksiévitch (resenha)

sábado, 13 de junho de 2026

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Vozes de Tchernóbil foi uma leitura angustiante e destruidora.... saí do livro impactada!

Saudações, Leitores!

Vozes de Tchernóbil (Чернобыльская молитва, 1997), da jornalista e escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, é uma daquelas obras que transcendem qualquer classificação simples. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, Aleksiévitch construiu sua carreira dando voz a pessoas comuns que viveram grandes tragédias históricas. Entre suas obras mais conhecidas estão A Guerra não Tem Rosto de Mulher, O Fim do Homem Soviético e Os Meninos de Zinco. Em seus livros, a autora combina jornalismo, história oral e literatura para registrar experiências humanas que frequentemente ficam à margem dos relatos oficiais. Em Vozes de Tchernóbil, ela faz exatamente isso ao reunir depoimentos de sobreviventes, bombeiros, cientistas, militares, médicos, mães, viúvas e moradores afetados pelo maior desastre nuclear da história. Este foi meu primeiro contato com um livro da escritora e fiquei absolutamente impactada.

Ao contrário de muitos livros sobre o acidente de Tchernóbil, ocorrido em 1986 na então União Soviética, aqui não encontramos explicações técnicas detalhadas sobre a explosão do reator ou análises científicas sobre a radiação. O foco da autora está nas pessoas, são dezenas de relatos que revelam como o desastre alterou vidas, destruiu famílias, contaminou territórios inteiros e deixou marcas físicas e psicológicas impossíveis de serem apagadas. Através dessas vozes, vamos descobrindo não apenas a dimensão da tragédia, mas também as mentiras, omissões e negligências cometidas pelas autoridades soviéticas.

Os relatos deste livro são de pessoas reais o que gera um impacto extraordinário: Uma esposa que acompanha o marido bombeiro enquanto ele morre lentamente devido à radiação; mães que perderam filhos; agricultores que se recusaram a abandonar suas terras; crianças que cresceram em áreas contaminadas sem compreender completamente o que estava acontecendo; cientistas que tentavam alertar sobre os riscos enquanto enfrentavam o silêncio institucional. O livro aborda temas como sofrimento humano, poder político, manipulação da informação, memória, luto, morte, amor, sobrevivência e a fragilidade da existência humana diante de forças que não conseguimos controlar. Mais do que um livro sobre Tchernóbil, esta é uma obra sobre o que significa ser humano quando tudo aquilo que parecia sólido deixa de existir.

Confesso que este livro me destruiu. Não me recordo de ter lido outra obra que tenha me deixado tão mal e tão angustiada quanto Vozes de Tchernóbil. Foram quase três meses de leitura porque simplesmente não conseguia avançar muitas páginas de uma vez. Doía demais. Cada depoimento parecia carregar um peso insuportável. A leitura me deixou psicologicamente abalada, desesperançada e profundamente incomodada com a constatação de que, mesmo diante de tragédias tão devastadoras, a humanidade parece aprender muito pouco. Ao longo das páginas, tive a sensação constante de que somos insignificantes diante de estruturas de poder que frequentemente nos tratam como números, peças descartáveis ou marionetes. 

Assim que terminei de ler o livro só conseguia abominar minha espécie humana, mas ao passo que eu absorvia esse volume percebi que o livro expõe o melhor e o pior do ser humano: a capacidade de amar, resistir e sacrificar-se pelos outros, mas também a crueldade, a negligência e a desumanização presentes em tantas instituições e relações sociais. É curioso dizer isso, mas mesmo tendo terminado a leitura emocionalmente devastada, dei cinco estrelas e favoritei o livro. E isso porque reconheço a força extraordinária da obra. Talvez seja o primeiro livro favoritado da minha vida que não tenho certeza se terei coragem de reler um dia. Além disso, depois de conhecer a escrita de Svetlana Aleksiévitch, entendo perfeitamente por que ela recebeu o Nobel de Literatura. Sua capacidade de transformar testemunhos em literatura é algo absolutamente impressionante. Inclusive, terminei a leitura com uma enorme vontade de conhecer seus outros livros.

Recomendo Vozes de Tchernóbil para leitores que apreciam não ficção, história, jornalismo literário e obras que provocam profundas reflexões sobre a condição humana. Não é uma leitura fácil, leve ou confortável. Pelo contrário: é um livro que exige envolvimento emocional e disposição para encarar algumas das facetas mais dolorosas da experiência humana. Por isso, talvez não seja a melhor escolha para quem procura entretenimento ou leituras de evasão. Em relação a adaptações, o livro inspirou diversas produções teatrais e audiovisuais ao redor do mundo. Embora a premiada minissérie Chernobyl (2019) não seja uma adaptação direta da obra, muitos dos testemunhos reunidos por Aleksiévitch influenciaram a construção de seu imaginário e de sua abordagem humana da tragédia.

Espero que esta resenha tenha conseguido transmitir um pouco da força desta leitura. Muito obrigada por me acompanhar até aqui, desejo ótimas leituras e nos encontramos na próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Чернобыльская молитва: Хроника будущего
Autor: Svetlana Aleksiévitch
Tradutor: Sonia Branco
Gênero: Narrativas pessoais
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1997-2016 | 384 págs.
País de Origem: Rússia
Classificação: +18
Aviso de Conteúdo: Acidente atômico. Radiação. Negligência governamental. Explosão. Ocultação de informações. Morte. Doenças. Decomposição. Morte de animais. Evacuação. Sofrimento humano extremo. Morte de bebês. Mal formação congênita. Doenças terminais. Corpos com falência. Saques. Oportunismos.
Minha avaliação: 
⭐⭐⭐⭐ (4/5)
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