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Doce Tóquio - Durian Sukegawa (resenha)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

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Doce Tóquio fala sobre solidão, preconceito, culpa, arrependimento, envelhecimento, amizade, pertencimento e o valor das pequenas coisas

Saudações, Leitores!

Doce Tóquio (An (あん), 2013) é meu primeiro contato com um livro do autor japonês Durian Sukegawa e este é um livro que me encantou por seu ritmo próprio e sua atmosfera melancólica que, indubitavelmente, nos faz refletir sobre a vida. Em Doce Tóquio, o autor transforma uma história aparentemente simples em uma narrativa sensível sobre encontros, perdas e segundas oportunidades.

Aqui vamos acompanhar Sentaro, um homem solitário que trabalha numa confeitaria, preparando dorayakis (doces japoneses recheados com pasta de feijão). Sua rotina muda completamente quando Tokue, uma senhora idosa com as mãos deformadas, pede uma oportunidade para trabalhar no local. Apesar da desconfiança inicial e de um certo preconceito, Sentaro descobre que Tokue possui um talento extraordinário para preparar da pasta de feijão que dá sabor aos doces e acaba contratando a idosa. Aos poucos, também conhecemos Wakana, uma adolescente que frequenta a loja e que, de maneira discreta, passa a fazer parte da vida dos dois, embora a participação da jovem seja pouca, ela tem um papel de unir gerações.

Mais do que uma história sobre culinária, Doce Tóquio fala sobre solidão, preconceito, culpa, arrependimento, envelhecimento, amizade, pertencimento e o valor das pequenas coisas. A narrativa também traz um importante recorte histórico ao abordar as consequências da hanseníase no Japão. Durante décadas, pessoas diagnosticadas com a doença foram obrigadas a viver isoladas em sanatórios, mesmo quando já existia tratamento eficaz, carregando um estigma social que marcou profundamente milhares de vidas. Esse contexto torna a trajetória de Tokue ainda mais dolorosa e significativa, mostrando como determinados preconceitos permanecem muito depois de a ciência oferecer respostas.

O que mais gostei neste livro foi perceber que ele possui seu próprio ritmo. É como se Durian Sukegawa convidasse o leitor a desacelerar para entrar na história. Não existe pressa. Os acontecimentos surgem naturalmente, os silêncios têm importância e os pequenos gestos dizem tanto quanto os diálogos. Achei isso especialmente bonito em um mundo em que estamos sempre correndo e consumindo histórias cada vez mais rápidas. 

Ao longo de toda a leitura existe uma atmosfera melancólica muito presente, quase como uma companhia constante. É um livro atravessado por arrependimentos, pelos "e se...", pelas oportunidades perdidas e pelas palavras que nunca foram ditas. Também me chamou atenção a dificuldade que muitos personagens têm para expressar seus sentimentos, algo que dialoga bastante com aspectos da cultura japonesa retratada na obra. 

Além disso, o preconceito aparece em diferentes níveis, mostrando como ele pode aprisionar pessoas por toda uma vida. Gosto muito da forma como Sukegawa constrói seus personagens: Sentaro carrega o peso das escolhas do passado; Tokue, apesar de toda a dor que viveu, continua encontrando beleza na existência; e Wakana representa uma geração mais jovem, igualmente cheia de inquietações, mas em busca de seu próprio lugar no mundo. São três gerações convivendo, cada uma marcada por preocupações muito distintas, mas todas igualmente humanas. Talvez seja justamente esse encontro entre diferentes fases da vida que torne o romance tão emocionante e também a percepção de que independente da idade todas as pessoas vivem dilemas, encruzilhadas, escolhas e dores, muitas vezes silenciosas, silenciadas e invisíveis.

Sim, finalizo a leitura recomendando Doce Tóquio para leitores que apreciam literatura japonesa, romances intimistas e histórias que valorizam os pequenos acontecimentos da vida. No entanto, por ser uma leitura contemplativa, delicada e profundamente sensível sei que pode não agradar todos os tipos de público.

Espero que esta resenha tenha despertado sua curiosidade para conhecer esta história tão delicada. Muito obrigada por ler até aqui e até a próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: An (あん)
Autor: Durian Sukegawa
Tradutor: Sandra Keika
Gênero: Ficção. Drama.
Editora: Morro Branco
Ano: 2013-2025 | 234 págs.
País de Origem: Japão
Classificação: +15
Aviso de Conteúdo: Preconceito. Hanseníase. Suicídio (menção).
Minha avaliação: 
⭐⭐ (4/5)
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