A Descida Final foi uma despedida bastante diferente do que eu esperava
Saudações, Leitores!
Cheguei ao último livro da série O Monstrologista e confesso que terminar uma série da qual gosto tanto sempre tem um gostinho agridoce, como você se sente quando conclui uma série? A Descida Final é o quarto e último volume escrito por Rick Yancey e, para mim, após a leitura de O Monstrologista, A Maldição de Wendigo e A Ilha de Sangue foi uma despedida bastante diferente do que eu esperava. A escrita continua envolvente e perturbadora, mas desta vez o autor brinca ainda mais com a nossa percepção dos acontecimentos. Se nos livros anteriores acompanhávamos Will Henry enfrentando monstros, neste último volume talvez o maior monstro seja justamente aquilo que existe dentro dele.
A história acompanha Will Henry em diferentes momentos de sua vida, e é justamente aí que a narrativa fica mais interessante e também mais confusa. Temos o Will adolescente, cada vez mais endurecido pelas experiências que viveu ao lado de Pellinore Warthrop, e também momentos posteriores de sua vida, décadas depois. A narrativa é construída por meio dos seus diários e de muitos flashbacks, que vão pouco a pouco formando um quebra-cabeça. No centro dos acontecimentos está uma criatura extremamente rara, o T. cerrejonensis, uma espécie de monstro serpentino cujo veneno possui propriedades extraordinárias e que desperta novamente a obsessão de Warthrop pela Monstrologia.
Mas, sinceramente, o monstro acaba sendo quase secundário diante do que acontece com Will e Warthrop, ou seja, o foco do volume não é a busca por esse monstro. A relação entre os Will e Warthrop chega ao seu ponto mais delicado. Will já não é mais aquela criança que seguia o doutor praticamente por necessidade e sobrevivência. Ele cresceu, acumulou experiências terríveis e começa a questionar tudo aquilo que aprendeu, sem contar que se torna um pouco arrogante como o seu mestre. Warthrop, por sua vez, passa a desconfiar da lealdade do próprio aprendiz e tenta recuperar o controle sobre ele. Pela primeira vez, os dois parecem estar em lados diferentes, e isso muda completamente a dinâmica que acompanhamos nos livros anteriores. Inclusive, como nos acostumamos ver Will e Warthrop como um só é difícil não estranhar esse distanciamento.
E aqui está uma das coisas que mais me intrigaram durante a leitura: pela primeira vez, eu comecei a desconfiar de Will Henry. Mesmo com o próprio “autor” alertando, desde o início, sobre os problemas encontrados nos manuscritos, em determinado momento comecei a me perguntar: será que podemos realmente acreditar em tudo o que Will conta/escreveu nos diários? Será que aquilo que estamos lendo aconteceu exatamente daquela maneira? E, mais perturbador ainda: e se toda aquela história de Monstrologia estiver sendo filtrada por uma mente que já não consegue distinguir perfeitamente realidade, memória e percepção? A estrutura do livro permite justamente esse desconforto, porque os manuscritos são apresentados como textos difíceis de interpretar e a narrativa passa a brincar com a confiabilidade de quem está contando a história. E o "autor" desde o primeiro volume buscou conferir fatos, mas sempre foi impossível descobrir com veracidade o que ele encontrava nos manuscritos, porém até ler esse volume eu ficava pensando que era verdade o que estava escrito e que algo maior tinha acontecido para obscurecer a monstrologia na história mundial, mas aqui começei a duvidar.
Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a maneira como Pellinore Warthrop é apresentado. Ao longo dos três primeiros livros, fomos conhecendo o doutor principalmente através dos olhos de Will. E talvez esse seja o ponto: através dos olhos de Will. Neste volume, parece que esse véu começa a cair. Warthrop continua sendo brilhante, complexo e fascinante, mas também é mostrado de maneira muito mais cruel, obsessiva e perturbadora. Comecei a enxergar aquela relação entre mestre e aprendiz de outra forma, além de tóxica como uma modelação de caráter e personalidade cruel. Será que Warthrop realmente estava tentando ensinar Will a sobreviver? Será que estava protegendo o garoto ou, de alguma maneira, moldando-o à sua própria imagem? E talvez a pergunta mais dolorosa seja: quanto de Warthrop existe em Will Henry? Nesse livro ele está muito parecido com seu mestre e isso assusta demais, porque é triste ver uma criança tão ingênua crescer e se tornar o que se tornou nesse volume.
O livro também me fez pensar bastante sobre uma questão que acompanha toda a série: se alguém passa a vida inteira estudando monstros, enfrentando monstros e tentando compreender monstros, existe o risco de acabar se tornando um deles? Talvez a verdadeira “descida” do título não seja apenas física ou relacionada às criaturas que os personagens enfrentam. Na conclusão do livro fica mais evidente se tratar de uma descida moral, psicológica e humana. Quanto horror uma pessoa consegue testemunhar antes de começar a perder aquilo que a tornava humana? E será que sobreviver a algo significa necessariamente sair inteiro?
Uma curiosidade que achei interessante é que este volume se diferencia estruturalmente dos anteriores. Além dos tradicionais folios, a obra é dividida em cantos, uma referência à Divina Comédia, de Dante, reforçando justamente essa ideia de descida, inferno e transformação. Também é interessante lembrar que a série inteira é construída a partir da ideia de que Rick Yancey estaria apenas organizando e apresentando os escritos de William James Henry, o que deixa a fronteira entre ficção, documento e memória ainda mais nebulosa.
No fim das contas, gostei muito de ter chegado até aqui. A escrita continua envolvente, a atmosfera permanece sombria e, apesar de em alguns momentos a narrativa ser propositalmente confusa, achei muito interessante perceber que eu já não conseguia confiar completamente no narrador. Durante a leitura, fiquei tentando separar o que era fato, lembrança, interpretação ou talvez uma versão conveniente dos acontecimentos. E isso, para mim, tornou a experiência ainda mais instigante. Termino a série com a sensação de que O Monstrologista nunca foi apenas uma história sobre monstros. Foi também uma história sobre Will Henry, sobre Warthrop e sobre o que acontece quando duas pessoas passam tempo demais olhando para o abismo.
Espero que tenha gostado da resenha e se interessado por essa série. Obrigada por ler e até a próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: The Final Descent Autor: Rick Yancey Tradutor: Fernando Nuno Gênero: Fantasia. Terror. Suspense Editora: Farol Literário Ano: 2013-2016 | 348 págs. País de Origem: Estados Unidos Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Assassinato. Monstros. Drogas. Incêndio. Violência. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5) |

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