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Nadando no Escuro - Tomasz Jedeowski (resenha)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

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Nadando no Escuro aborda temas importantes que trazem uma grande reflexão, mas senti falta de algo a mais

Saudações, Leitores!

Sabe quando um livro é tão aclamado que você começa a leitura com a sensação de que esse livro pode se tornar um favorito? Pois é... às vezes isso é uma armadilha. Nadando no Escuro, romance de estreia do escritor polonês Tomasz Jędrowski, foi um desses casos para mim. Eu queria muito ter gostado deste livro. Afinal, gastei meu dinheiro comprando o volume justamente porque vi tanta gente falando maravilhas dele que pensei: “preciso ler!”. Mas não aconteceu. E antes que alguém jogue uma pedra em mim, já aviso: não achei o livro ruim. Só achei... normal demais para tudo aquilo que eu esperava. Fui com sede demais ao pote e vou explicar os pontos que não gostei e o que me agradou.

A história se passa na Polônia, em 1980, durante os últimos anos da República Popular da Polônia, em um período marcado por tensão política, repressão, desigualdade e pelo crescimento dos movimentos de oposição ao regime. É nesse contexto que conhecemos Ludwik, um jovem universitário enviado para um acampamento agrícola, onde conhece Janusz. A amizade entre os dois rapidamente se transforma em uma paixão e, longe dos olhares da sociedade, eles vivem um verão quase idílico, entre mergulhos, descobertas e a leitura clandestina de O Quarto de Giovanni, de James Baldwin. Quando retornam a Varsóvia, entretanto, o mundo real volta a bater à porta e o amor dos dois, que é proibido para a época, precisa sobreviver em uma sociedade que não permite que eles sejam quem são. 

Ludwik e Janusz, apesar da atração e do sentimento que desenvolvem um pelo outro, são muito diferentes. Ludwik é mais questionador, inconformado e interessado em liberdade, enquanto Janusz começa a se aproximar cada vez mais das estruturas do poder e do Partido, inclusive assumindo um cargo ligado ao controle da imprensa para conseguir vantagens que caso não estivesse envolvido jamais teria acesso, ou seja, Janusz segue seu caminho escolhendo jogar pelos seus próprios interesses concordando ou não com o que vê. E é justamente aí que a relação dos dois começa a se desgastar. O romance deixa de ser apenas uma história de amor escondido e passa a ser também uma história sobre escolhas: até onde estamos dispostos a abrir mão de nossos valores para sobreviver? E o que acontece quando duas pessoas que se amam caminham em direções completamente diferentes? Suas opiniões e escolhas estão tão distantes que caminhar juntos significa que alguém vai ter que ceder muito.

Aliás, foi justamente essa relação que ficou mais evidente para mim desde o início: o relacionamento entre Ludwik e Janusz é tóxico e marcado por divergências profundas de pensamento e de direcionamento. Existe desejo, existe afeto, existe uma história até bonita entre eles, mas também existe uma incompatibilidade que vai se tornando cada vez mais difícil de ignorar. Enquanto Ludwik deseja escapar e viver com mais liberdade, Janusz parece disposto a fazer concessões para permanecer onde está e conquistar uma posição dentro daquele sistema. E talvez o livro queira justamente mostrar que amar alguém não significa necessariamente conseguir construir uma vida ao lado dessa pessoa. Tem coisas que mesmo amando não dá para negociar, não é mesmo? (Não precisa ser uma Virginia que negocia o inegociável, rsrsrsr). Em outras palavras, muitas vezes quem a gente ama, não é a pessoa que nós idealizamos e quando essa ficha cai ou se aprende a lidar com isso ou o relacionamento se desgasta.

E aqui chegamos ao meu problema com o livro. Nadando no Escuro aborda temas importantes: liberdade, identidade, sexualidade, repressão, política, desigualdade, primeiro amor, amadurecimento e as escolhas que fazemos para sobreviver. Tudo isso dentro de um período histórico extremamente complexo. São temas que poderiam render discussões profundas e muitas reflexões. E, embora eu reconheça que o livro traz sentimentos válidos e algumas reflexões muito interessantes, senti que, no geral, muita coisa ficou na superfície, eu senti falta de um aprofundamento maior. Eu esperava uma abordagem mais intensa, mais visceral, que me fizesse terminar a leitura carregando aquele livro comigo por dias. E não foi o que aconteceu.

Talvez minhas expectativas tenham sido altas demais. E isso também é algo que nós, leitores, precisamos admitir. Vivemos em uma época em que as redes sociais estão cheias de livros “imperdíveis”, “geniais”, “obras-primas”, “cinco estrelas sem pensar duas vezes”. Quando uma obra recebe aclamação de tanta gente, acabamos criando uma expectativa que talvez o próprio livro nunca tenha prometido entregar. Foi o que aconteceu comigo. Fui esperando algo extraordinário e encontrei um livro competente, com uma boa história e temas relevantes, mas que não conseguiu me arrebatar.

E existe uma ironia nisso tudo: a internet vive dizendo que devemos ser honestos em nossas resenhas, que precisamos falar o que realmente pensamos, que não devemos dar cinco estrelas para tudo. Mas quando alguém efetivamente discorda da maioria, aparecem as críticas e a famigerada expressão: "Você leu errado". Parece que queremos leitores sinceros, desde que a sinceridade coincida com a nossa opinião. E não deveria ser assim. Literatura também é experiência pessoal. Um livro pode ser maravilhoso para milhares de pessoas e não funcionar para mim. E tudo bem. As expectativas que nos fazem abrir as páginas de um livro trazem um impacto grande na experiência.

No meu caso, eu queria ter amado Nadando no Escuro. Queria terminar a leitura entendendo toda a aclamação que recebeu. Mas não aconteceu. Não considero o livro ruim e consigo reconhecer suas qualidades, especialmente a maneira como entrelaça o romance de Ludwik e Janusz ao cenário político e social da Polônia dos anos 1980. Só não encontrei nele a genialidade que esperava. Talvez, se tivesse começado a leitura sem tantas expectativas, minha experiência tivesse sido diferente ou talvez se o livro detalhasse mais algumas coisas eu teria conseguido me envolver mais, sabe? Senti falta de conhecer mais sobre a família dos dois protagonistas, queria ter conhecido melhor os amigos, queria saber o lado de Janusz e seus sentimentos, porque do jeito que a história foi contada ele pareceu frio e completamente oportunista e não acho que ele merecesse apenas esse rótulo. Talvez que este livro tivesse mais algumas páginas teria conseguido explorar mais nuances, inclusive do cenário político.

No fim, Nadando no Escuro me deixou pensando justamente sobre isso: até que ponto a opinião coletiva interfere na nossa própria experiência com uma obra? Será que gostamos realmente de um livro ou, às vezes, chegamos à leitura já convencidos de que precisamos gostar porque todo mundo gostou? E mais: será que discordar da maioria diminui o valor da nossa experiência como leitores? Para mim, definitivamente não.

Então, esta é uma daquelas resenhas em que não vou fingir que amei só porque muita gente amou. Eu queria ter gostado muito mais. De verdade. Mas não gostei tanto quanto esperava. E talvez essa seja justamente a parte mais importante de falar sobre livros: ter liberdade para dizer “não funcionou para mim” sem precisar transformar isso em “o livro é ruim”. Nadando no Escuro tem seus méritos, temas importantes e uma história que certamente encontrará leitores muito mais apaixonados do que eu, além disso é uma narrativa curta (dá para ler facilmente em um dia) que nos prende da primeira à última página. Para mim, entretanto, ficou apenas como uma leitura boa.

Obrigada por ler até aqui e até a próxima postagem, espero que tenha gostado desse meu veredito.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Swimming In The Dark
Autor: Tomasz Jedrowski
Tradutor: Luiza Marcondes
Gênero: Ficção. Romance Histórico.
Editora: Astral Cultural
Ano: 2020-2024 | 240 págs.
País de Origem: Alemanha. Inglaterra.
Classificação: +15
Aviso de Conteúdo: Guerra. Homossexuais. Homofobia. Relacionamento Tóxico. Conteúdo sexual.
Minha avaliação: 
⭐⭐⭐ (3/5)
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