Já li e reli O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë e continuo achando sua história incrível, justamente por ser tão intensa, estranha, sombria e diferente de tantas outras histórias que encontramos por aí, porque é um romance doentio, trágico e intenso.
Por isso, quando soube que teria uma nova adaptação desse livro fiquei bastante curiosa foi por isso que optei por reler o livro para conferir a adaptação, porém, quando o povo começou a assistir e dizer que não gostou - como se já não bastasse toda a problemática levantada com a escolha dos atores, etc. Eu mantive meu pés no chão, não esperava necessariamente uma reprodução página por página, até porque sei que adaptar um romance tão complexo não é uma tarefa simples (mas diga-se de passagem, já assisti uma adaptação desse li e amei). No entanto, esperava encontrar, pelo menos, a essência da obra que conheço e admiro tanto. E foi aí que veio a decepção. Se eu tivesse caído de um cavalo, provavelmente a queda teria sido menor.
Ano: 2026
Direção: Emerald Fennell
Duração: 136 min (2h 16m)
Classificação: +16 anos
Gênero: Comédia. Romance.
País de origem: Estados Unidos. Reino Unido.
Minha Avaliação: ⭐ (1/5)
Sinopse: Uma história de amor apaixonada e tumultuada que tem como pano de fundo os pântanos de Yorkshire, explorando o relacionamento intenso e destrutivo entre Heathcliff e Catherine Earnshaw.
Entre o livro e o filme
A história de Catherine Earnshaw e Heathcliff continua sendo o ponto central da produção. Temos a relação intensa, obsessiva e destrutiva entre os dois desde a infância, os conflitos familiares e toda aquela atmosfera que fez de O Morro dos Ventos Uivantes um dos grandes clássicos da literatura.
Mas, para mim, a sensação foi de que o filme pegou os personagens e a história de Emily Brontë e resolveu contar uma outra coisa. E esse é o problema.
Não me incomoda quando uma adaptação faz mudanças. Entendo perfeitamente que cinema e literatura são linguagens diferentes e que algumas alterações são necessárias. O que me incomodou aqui foi a quantidade de elementos fundamentais que foram retirados ou completamente modificados e os acréscimos de cenas desnecessárias de sexo, degradação.
A adaptação se concentra principalmente na primeira metade do romance e termina justamente em torno da morte de Catherine, deixando de lado toda a segunda geração de personagens que existe no livro. Com isso, desaparece uma parte importantíssima da narrativa de Brontë: as consequências das escolhas de Heathcliff e a forma como o ciclo de vingança e sofrimento passa de uma geração para outra. E para mim isso faz muita diferença.
Heathcliff e Catherine
Talvez aqui esteja minha maior dificuldade com a adaptação. No livro, a relação entre Catherine e Heathcliff é muito mais complexa do que simplesmente uma grande história de amor. É obsessiva, dolorosa, destrutiva e atravessada por questões de classe, poder, vingança e pertencimento.
No filme, senti que essa complexidade foi bastante reduzida em favor de uma abordagem muito mais sensual, de posse e desejos canais e deixando para segundo plano a questão financeira e de classe.
A relação dos dois é explicitamente sexualizada, algo muito diferente da maneira como Emily Brontë constrói esse vínculo no romance. O livro trabalha muito mais com a tensão psicológica, com aquilo que não é dito e com a impossibilidade de separar amor, obsessão, egoísmo e destruição. Já o filme coloca a sensualidade no centro de maneira muito mais evidente e depravada, com traição, desejos sexuais sadomasoquistas, um relacionamento tóxico ao extremo. E, particularmente, não foi uma escolha que funcionou para mim.
Cadê os personagens?
Outra coisa que me incomodou bastante foi perceber quantos personagens e acontecimentos importantes simplesmente não estão no filme.
Lockwood, que é fundamental para a estrutura narrativa do livro, não aparece. Hindley também foi retirado e algumas de suas características e funções foram incorporadas a outros personagens. Edgar e Isabella também têm suas relações modificadas.
Sem contar que os personagens secundários que aparecem são caricaturas, pouco aparecem e aprofundam os dilemas morais da época, são fantoches. Praticamente todas as cenas dessa adaptação são apresentadas Catherine e Heathcliff transando em algum lugar diferente e em uma posição diferente, até os diálogos como "Isso não pode continuar" é fraco e termina em sexo. Foi doloroso ver essa adaptação de um livro tão profundo se resumir, segundo a visão dessa adaptação, em cenas quase impróprias.
Eu entendo a necessidade de condensar uma história tão extensa para o cinema, mas, ao retirar tantos elementos, a adaptação acaba ficando muito mais focada no romance entre Catherine e Heathcliff e O Morro dos Ventos Uivantes é muito mais do que isso, na minha visão.
E eu tentei assistir...
Preciso confessar uma coisa que raramente acontece comigo: precisei dar play no filme três vezes para conseguir terminar. Na primeira tentativa, assisti a uma parte e parei. Na segunda, tentei novamente e não consegui avançar muito. Na terceira, finalmente consegui chegar ao final.
E não foi porque eu não entendia a história. Muito pelo contrário, por conhecer tão bem o livro, eu fiquei o tempo todo esperando encontrar aquela atmosfera, aquela estranheza e aquela intensidade que considero tão marcantes na obra de Emily Brontë. Mas fiquei entediada e desconfortável com tantas cenas sensuais desnecessárias, que me pareceram ter a única função de chocar o telespectador.
Uma adaptação visualmente bonita
Visualmente, a produção é muito bonita. A fotografia, os cenários e os figurinos chamam atenção, ao passo que são exagerados, dramáticos, excessivo e perturbadores, mas existe uma preocupação evidente em criar uma experiência cinematográfica marcante. A produção aposta em uma estética bastante própria, que combina com a proposta mais sensual e extravagante de Emerald Fennell.
O elenco também reúne nomes bastante conhecidos, como Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis de Catherine e Heathcliff. A produção, inclusive, assume desde o início que se trata de uma releitura bastante particular da obra, e não de uma adaptação literal.
O problema é que não encontrei Emily Brontë ali
Para mim, o grande problema de O Morro dos Ventos Uivantes está justamente nessa distância entre o que o filme quer ser e aquilo que eu esperava encontrar. A própria Emerald Fennell já explicou que considerava impossível adaptar literalmente um livro tão denso e complexo e que estava fazendo a sua própria versão da história. E tudo bem. O problema é que a versão dela não funcionou para mim.
Talvez alguém que nunca tenha lido o livro consiga assistir ao filme e enxergá-lo simplesmente como uma história de amor intensa, sensual e trágica. Mas, para quem conhece o romance de Emily Brontë, algumas escolhas são difíceis de ignorar.
Afinal, livro ou filme?
Neste caso, para mim, não existe muita dúvida. Fico com o livro. O Morro dos Ventos Uivantes é uma obra que já li e reli e que continua me impressionando justamente porque não é uma história de amor convencional. É desconfortável, sombria, intensa e cheia de personagens que nem sempre conseguimos compreender ou perdoar.
O filme escolhe outro caminho. Eu queria amar esse filme. Mas, infelizmente, o máximo que consegui foi terminar.
Agora me conte se assistiu, quer assistir? O que achou e qual espectativa?
Obrigada por ter lido e até a próxima postagem!




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