O Morro dos Ventos Uivantes é um livro maravilhoso justamente porque não é fácil, não é gentil e não busca agradar
Saudações, Leitores!
O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico mundial escrito por Emily Brontë, publicado originalmente em 1847, o romance nasceu em um contexto vitoriano profundamente marcado por rígidos códigos morais, expectativas sociais fixas e uma literatura que, em grande parte, buscava domesticar emoções. Emily Brontë fez exatamente o oposto. Sua escrita é bruta e selvagem. Talvez por isso sua obra tenha sido tão incompreendida em seu lançamento, sendo vista como excessivamente sombria, violenta e moralmente perturbadora para a época.
Li O Morro dos Ventos Uivantes pela primeira vez por volta de 2011 e, naquela época, lembro de ter sido completamente arrebatada. Era um amor intenso, quase cego, movido pela força trágica da narrativa, pela obsessão de Heathcliff e pela figura indomável de Catherine. Eu amei. Inclusive li o livro após ele ser mencionado por Bella e Edward (de Crepúsculo).
Anos depois, retornei a essa leitura motivada pela nova adaptação cinematográfica que já está no cinema e está causando um verdadeiro burburinho (creio que já devem ter visto algo a respeito). E foi nessa releitura que aconteceu algo ainda mais interessante: reli com outros olhos, outras vivências, outro repertório emocional e crítico. O amor e reconhecimento pela obra permaneceu, mas agora acompanhado de camadas que antes me escaparam.
O livro narra a história devastadora e até metafísica de Heathcliff e Catherine Earnshaw. Heathcliff é um menino órfão de origem desconhecida e pele escura adotado pelo sr. Earnshaw e levado para viver na residência chamada O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), toda a narrativa acontece no isolamento das charnecas inglesas e após a morte do sr. Earnshaw, Heathcliff foi humilhado pela elite local e preterido por Catherine que optou por um casamento por status com Edgar Linton (da residência Granja da Cruz dos Tordos - Thrushcross Grange). É a partir daí que Heathcliff desaparece e quando retorna dedica sua vida a um plano de vingança cruel que atravessa gerações, com o objetivo de destruir as famílias que o rejeitaram.
Na releitura, percebi com mais clareza o quanto essa é uma história sobre destruição emocional, sobre como o amor pode se tornar posse, obsessão e violência. Heathcliff deixou de ser apenas o anti-herói trágico para se revelar também cruel, vingativo e profundamente marcado por traumas, ele simplesmente não queria mudar e esqueceu todos os valores sociais e virtudes que o homem pode ter quando cultivadas, mas estava tão rancoroso que condenou sua existência em busca de vingança. Catherine, por sua vez, mostrou-se ainda mais complexa: presa entre o que sente e o que a sociedade espera dela, medrosa em quebrar paradigmas sociais e cruel colocando as pessoas que a amava num verdadeiro impasse e confronto, não é à toa que ficou dilacerada por escolhas que não comportam felicidade plena e isto foi seu fim.
O que antes me parecia apenas um romance intenso, agora se revelou também uma crítica social afiada, uma denúncia das hierarquias de classe, do abandono, da herança emocional do sofrimento e da incapacidade humana de romper ciclos de dor, sem contar que nessa releitura percebi o quão jovem os personagens eram e o quanto suas vidas foram tão intensas em tão poucos anos que viveram. Emily Brontë não romantiza seus personagens pelo contrário sempre deixou evidente que eles nunca foram perfeitos. E isso é, ao mesmo tempo, desconfortável e genial.
A releitura não diminuiu em nada minha admiração, pelo contrário: fortaleceu. Hoje tenho ainda mais convicção de que O Morro dos Ventos Uivantes é um livro maravilhoso justamente porque não é fácil, não é gentil e não busca agradar. Ele provoca, inquieta e permanece ecoando muito depois da última página.
Reler foi perceber que apesar do tempo, das mudanças e das novas críticas, ele continua sendo tão intenso quanto antes, talvez até mais verdadeiro.
Obrigada por ter lido até aqui, até a próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: Wuthering Heights Autor: Emily Brontë Tradutor: Solange Pinheiro Gênero: Ficção. Romance Gótico. Clássico. Editora: Martin Claret Ano: 1847-2014 | 526 págs. País de Origem: Inglaterra Classificação: +16 Aviso de Conteúdo: Abuso infantil. Doença Crônica. Morte. Abuso emocional. Abuso físico. Gravidez. Sepultura. Relacionamento tóxico. Violência doméstica. Agressões. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5) |

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