Grama não foi uma leitura fácil e muito menos confortável. Fiquei aflita, revoltada e, em alguns momentos, precisei respirar e continuar.
Saudações, Leitores!
Já li outra HQ de Keum Suk Gendry-Kim, chamada Cães, portanto, Grama não foi meu primeiro contato com uma Graphic Novel da autora mas esta me deixou ainda mais impactada, diria que vou demorar bastante para esquecer o que li aqui. A obra é baseada em fatos reais e conta a história de Ok-sun Lee, uma mulher sul-coreana que, ainda muito jovem, foi vítima da escravidão sexual promovida pelo Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, esta é uma HQ histórica com esse pano de fundo tenebroso. Eu já tinha ouvido falar sobre as chamadas “mulheres de conforto”, mas confesso que nunca havia me informado de verdade sobre o que aconteceu com essas mulheres e sobre o quão trágico, cruel e desumano foi esse episódio da história.
Como mencionei, Grama acompanha a história de Ok-sun desde a infância, quando ela vive em uma família extremamente pobre e sonha com a possibilidade de estudar - este é seu maior sonho, até o momento em que sua vida é completamente destruída pelas circunstâncias da guerra. Ela é enganada até pela própria família, vendida e posteriormente levada para uma das chamadas “casas de conforto”, onde passa a sofrer violência sexual sistemática - ela e outras milhares de crianças e adolescentes, quanto mais novas os soldados mais velhos gostavam, uma verdadeira história de pedofilia aqui também. A narrativa também acompanha sua vida depois da guerra, mostrando que sobreviver não significou simplesmente deixar tudo aquilo para trás. Após a guerra veio a fome, a solidão e outro grande baque de ser enganada por outra pessoa a quem ela confiou.
Nas páginas fica evidente que o trauma do que foi vivido permanece, assim como o silêncio e as consequências de tudo o que viveu, sobretudo porque ela foi desenraizada, mesmo voltando a reencontrar seus irmãos, eles já não eram quem ela tinha deixado na Coreia, eram desconhecidos e como ela foi uma mulher de conforto todos tinham um certo preconceito com ela. Ok-sun era uma sobrevivente que se sentia desolada, sozinha, sem sonhos e objetivos. Uma frase que me impactou bastante foi a que ela disse: "Eu nunca conheci a felicidade. Nunca. Desde o momento que sai da barriga da minha mãe"
Foi impossível não ficar aflita durante a leitura. Fiquei enojada com o que aconteceu com aquelas mulheres e, em vários momentos, me peguei pensando em como é possível que seres humanos tenham sido capazes de fazer coisas tão cruéis com outros seres humanos. O mais doloroso é saber que não estamos falando de uma ficção criada para chocar. Estamos falando de pessoas reais, de meninas e mulheres que tiveram suas vidas roubadas e que, durante muito tempo, tiveram suas histórias silenciadas. Além de terem passado anos vivendo em condições desumanas, estupros, fome, escravidão, doenças sexualmente transmissíveis, abortos... Sem nenhuma dignidade.
Apesar de tudo isso, uma das coisas que mais admirei em Keum Suk Gendry-Kim foi justamente a forma como ela conta essa história. Existe um trabalho de pesquisa histórica impressionante, mas também existe muita sensibilidade. A autora não esconde a dor, não suaviza o sofrimento e não tenta transformar aquilo em algo palatável. Ao mesmo tempo, ela não precisa recorrer a cenas gráficas para nos fazer compreender a violência brutal que acontecia nas muitas casas de conforto frequentadas por soldados.
Essa escolha pode até tornar a leitura difícil, mas é fato que a autora nos deixa imaginar. E, às vezes, a nossa imaginação consegue ser muito mais cruel do que qualquer desenho poderia ser. Ao transformar o testemunho de Ok-sun em uma narrativa gráfica, Gendry-Kim não parece querer apenas contar uma história de sofrimento, mas preservar uma memória que durante muito tempo foi ignorada. É uma obra que fala sobre guerra, violência, pobreza, machismo, exploração, silenciamento e trauma, mas também sobre resistência e luta por uma reparação histórica.
E fiquei pensando muito em uma coisa durante a leitura: por que parece que algumas pessoas vêm ao mundo apenas para sofrer? Ok-sun passa por situações que nenhuma pessoa deveria passar, perde a infância, sofre violência, enfrenta abandono, pobreza e tantas outras dores. E, mesmo assim, em vez de simplesmente desistir, ela encontra forças para continuar. Mais do que isso: torna-se uma ativista e passa a lutar para que a história dessas mulheres não seja esquecida. Isso me impressiona profundamente. Como pode alguém que teve tanto de si arrancado ainda encontrar espaço para esperança e para lutar por outras pessoas? Eu tiro meu chapéu.
Grama poderia ser apenas uma narrativa sobre atrocidades da guerra, mas ela consegue ser também uma história sobre sobrevivência, memória e resistência. O próprio título é simbólico: a grama pode ser pisoteada, derrubada pelo vento, esmagada inúmeras vezes, mas volta a crescer. No final do volume a autora expressa que foi por esse motivo que deu este título a sua Graphic Novel.
Grama não foi uma leitura fácil e muito menos confortável. Fiquei aflita, revoltada e, em alguns momentos, precisei respirar e continuar. Mas foi também uma leitura extremamente importante. É o tipo de obra que nos lembra que conhecer a História não deveria significar apenas decorar datas, nomes e acontecimentos, mas olhar para as pessoas que estavam ali e tentar compreender o que elas viveram e reconhecer que cada vida importa.
Espero que tenha gostado da resenha, obrigada por ler e até a próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: Grass Autor: Keum Suk Gendry-Kim Tradutor: Jae HW Gênero: Graphic Novel. HQ. Romance Histórico. Editora: Pipoca & Nanquim Ano: 2017-2020 | 488 págs. País de Origem: Coreia do Sul Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Venda de Crianças. Prostituição Infantil. Escravidão Sexual. Estupro. Doenças venéreas. Violência doméstica. Guerra. Colonização. Solidão. Falta de reparação histórica. Abandono. Fome. Pobreza. Abuso. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐♥️ (5/5) |

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