Resenha: "O Caderno Azul" de James A. Levine

O Caderno Azul, James A. Levine, Rio de Janeiro: Rocco, 2010, 208 pág
Tradução: Ryta Vinagre
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Saudações Leitores!
The Blue Notebook (2009), no Brasil, O Caderno Azul é o livro de estreia de James A. Levine, apesar de ser ficção, o enredo choca pelo fato de ser inspirada na vida de milhares de crianças e adolescentes que vivem da prostituição. James A. Levine é um médico renomado e em suas campanhas internacionais presenciou cenas de prostituição infantil e isso serviu de inspiração para o livro, também uma forma de denunciar um fato que muitas pessoas preferem não comentar achando que isso vai fazer com que a prostituição suma.
"Minha mãe sempre me espancava porque minha resistência era grande demais. A palma vermelha de sua mão batia na minha cara com tal violência que eu achava que podia quebrar meu pescoço. Antes de uivar de dor desses ataques frequentes, eu tentava reprimir o grito, porque queria fortalecer minha capacidade de morar dentro de mim mesma. Hoje em dia, os golpes não são com a mão de mamãe aberta e vermelha de hena, mas do bater dos quadris dos homens nos meus. Mas minha mãe me treinou bem, porque agora eu vivo dentro de mim."
No livro vamos acompanhar a história de Batuk, que aos nove anos foi vendida pelo pai e desde então se tornou vítima da exploração sexual. Acompanhamos a triste mudança de Batuk que vivia como uma criança normal e inocente com sua família numa aldeia na Índia, no entanto, seu pai a vende e ela passa a morar em Bombaim e passa a ser uma escrava sexual. 

Batuk vive as mais tristes, ultrajantes, humilhantes e desnorteantes situações em Bombaim, onde a prostituição vira negócio e casas são utilizadas como bordeis geridas por cafetões que obrigam as crianças a se relacionarem com, às vezes, mais de dez pessoas por dia. Essas crianças são violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente e expostas as maiores crueldades humanas.
"O remorso não obedece à classe ou ao dinheiro. O marido, padre, pai, professor, médico, executivo, filho, banqueiro, ladrão, político, todos têm a capacidade de sentir remorso. Desde aquele dia em que meu pai me mostrou a capacidade para o remorso, passei a reconhecê-la em todos os homens que conheci."
Com a inocência perdida e sem sonhos Batuk encontra um caderno azul e passa a escrever sua história e sua experiência trágica como meio de desabafar, esse caderno azul é exatamente o livro que temos em mãos e vamos descortinando a trágica história.

A forma como Batuk descreve seu cotidiano e o das outras pessoas com quem convive é de partir o coração e causar náuseas. O leitor não é poupado. Durante toda a leitura de O Caderno Azul fiquei com o coração apertado e ao final ele despedaçou. Essa leitura exigiu muito de mim e apesar de ser muito triste há elementos sutis e sensíveis.
O fato de Batuk encontrar um porto seguro, uma fuga de sua realidade nos momentos em que está lendo e escrevendo em seu caderno azul é significativo, são momentos de felicidade diante de uma realidade tão cruel. A forma como também é apresentado a amizade sincera que Batuk tem com Punnet e a forma como ambos se preocupam um com o outro, mostra que na solidão e no desespero sempre há fachos de luz.
"Enquanto me olho no espelho, estendo a mão para me tocar. Sinto o vidro, mas sei que não sou feita de vidro. Se fosse, estaria espatifada."
O Caderno Azul é um livro relativamente curto, mas a leitura é difícil por conta do tema pesado do enredo, não dá para ler de um fôlego só, a não ser que você seja desalmado e não consiga sentir toda a dor que está ali representada naquelas palavras, mas é uma leitura válida pois é aquela situação em que a ficção imita a vida real.

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