Resenha: "No Seu Pescoço" de Chimamanda Ngozi Adichie

No Seu Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie, São Paulo: Companhia das Letras, 2017, 240 pág.
Tradução: Julia Romeu
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Saudações Leitores!
The Thing Around Your Neck (2009) no Brasil: No Seu Pescoço é mais um livro da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, também autora de Sejamos Todos Feministas e Para Educar Crianças Feministas, já resenhados aqui, no blog. 

No Seu Pescoço não um lançamento, pois originalmente foi publicado em 2009, mas apenas este ano foi traduzido e lançado no Brasil. Aqui vamos nos deparar com uma coleção de 12 contos, que abordam questões muitas vezes cotidianas e existenciais do tão estereotipado "sexo frágil", no entanto, Adichie, mostra que de frágil as mulheres não tem nada.
"Como você pode amar alguém e ao mesmo tempo querer controlar o nível de felicidade que é permitido à pessoa?"
É incrível como Adichie consegue transitar bem entre romance, manifesto, cartas e contos sem perder a essência do feminismo e mostrando que esta batalha não é para se tornar melhor ou pior que o homem, mas buscar uma linha que os posicione de maneira que cada um se sinta confortável - porque igualdade mesmo isso não existe, nem de homem para homem, mas existe algo que todos podemos conquistar: o conforto e a possibilidade de manter opiniões e vontades.
"Havia emoções que Janara queria segurar na palma da mão, mas que simplesmente não existiam mais."
No volume seremos apresentados aos contos: "A cela um", "Réplica", "Uma experiência privada", "Fantasma", "Na segunda-feira da semana passada", "Jumping Monkey Hill", "No Seu Pescoço", "A embaixada americana", "O tremor", "Os casamenteiros", "Amanhã é tarde demais" e "A historiadora obstinada".
Adichie é uma escritora referência para quem gosta de ler livros sobre feminismo e empoderamento feminino, pois ela tem uma forma bem particular e "pé no chão" de ver esta corrente e levantar esta bandeira. Todos os contos são uma preciosidade, mas obviamente há alguns que sempre vamos achar melhores que os outros, por conta de nossa própria bagagem e identificações pessoais.
"_A sua fé é quase uma briga. Por que Deus não pode se revelar de maneira não ambígua e esclarecer as coisas de um vez por todas? Qual o sentido de Deus ser um enigma?
_Porque é a natureza de Deus. Se você compreender a ideia física de que a natureza de Deus é diferente da natureza humana, então isso vai fazer sentido."
A cada conto que ia lendo ficava e mais e mais surpresa pela forma como Adichie denunciava preconceitos, diferenças raciais e sexuais, alguns contos foram tocantes, outros profundos e alguns tristes, mas minha sensação durante a leitura foi de revolta por ainda sermos vistas de forma tão fragilizada e por ainda termos que lutar e falar de algo que não devia mais acontecer: essas terríveis diferenças que muitas vezes subjugam o sexo feminino. Por incrível que pareça o sexo feminino ainda é visto como objeto, como algo inferior.
Sem sombra de dúvida No Seu Pescoço é o tipo de livro que tenho vontade de presentear para todo mundo, por achar que TODOS deveriam ler, sobretudo as mulheres, porque é como se estivéssemos compartilhando experiências com a escritora e com suas personagens. É incrível! Além disso Chimamanda não vitimizou suas personagens, de modo que as tornou mulheres cheias de atitude para reconhecerem o preconceito, o desconforto social que passam apenas por terem nascido mulheres - que pode acontecer de forma "escancarada", mas também pode acontecer de forma sutil - e terem a coragem e a possibilidade de mudar.
"Como uma pessoa pode dizer que ama você e mesmo assim querer que faça só o que é bom para ela? Talvez não fosse amor. Udenna fez isso, Udenna fez aquilo, mas por que você deixou? Já parou para pensar que talvez não fosse amor?"
No Seu Pescoço me fez sentir uma mulher poderosa, porque tem personagens femininas destemidas, forçudas, lutadoras, cheias de personalidade e esperança para escreverem suas histórias e pedirem ajuda quando precisam, mas, durante a leitura, também senti muita tristeza porque sei que injustiças sempre irão existir e que o preconceito e o ódio, por vezes, chegam a "falar" mais alto, fato que faz com que se dissemine ainda mais preconceito e ódio (é uma reação cíclica). Aquilo que se semeia tende a crescer, então você vai colher o que semeia, certo? Seria tão bom que os seres humanos semeassem apenas amor, esperança e justiça... Mas há sempre um fio de esperança.

Depois de tudo o que escrevi é desnecessário dizer que indico o livro, porque já ficou claro minha posição. Aproveitem a oportunidade!

1 comentários:

Muito obrigada pelo Comentário!!!!