Resenha: Bem-vindos ao Paraíso - Nicole Dennis-Benn

sexta-feira, novembro 01, 2019

Bem-vindos ao Paraíso, Nicole Dennis-Benn, São Paulo: Editora Morro Branco, 2018, 416 pág.
Tradução: Heci Regina Candiane
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Saudações Leitores!
Bem-vindos ao Paraíso (Here comes the Sun, 2016), escrito pela romancista jamaicana Nicole Dennis-Benn, trata-se de um romance premiado, vencedor do Lambda Literary Award.

Desde o lançamento, fiquei bastante curiosa para ler Bem-vindos ao Paraíso, entretanto, era aquele livro que prometia ser tão visceral que eu não poderia lê-lo sozinha, então fiquei bastante feliz quando foi escolhido para leitura do clube Cookies & Borrões, assim lemos e comentamos todas juntas.


Bem-vindos ao Paraíso é um livro muito forte e aborda temas controversos na Jamaica de tal forma que, o leitor, consegue SENTIR tudo o que Nicole escreve. Temas como: relação familiar, sexualidade, identidade, racismo, o poder do dinheiro, a ânsia de prosperar, o comercio sexual, o turismo, entre outros.

"É óbvio que ela tem sonhos. Ela sempre teve sonhos. O sonho dela é cair fora dali e ir para o lugar mais longe possível. Talvez os Estados Unidos, a Inglaterra ou algum outro lugar onde possa se reinventar. Se tornar uma nova pessoa, sem limites; um lugar em que possa se entregar aos desejos que recusa a tanto tempo."

O romance se passa na Jamaica, isso em si já me chamou bastante atenção, pois não tinha lido nenhum livro ambientado na Jamaica. Aqui iremos acompanhar a história de uma família composta basicamente por mulheres, fortes e bastante reais. Não são mulheres perfeitas, porque ninguém é.

Acompanhar Margot, Delores (sua mãe) e Thandi (sua irmã) é uma verdadeira jornada em que vemos a opressão, a miséria e as intempéries da vida de forma nua e crua. É impossível não sentir um aperto profundo no peito e uma revolta com o carma dessas mulheres.

Ao passo que Bem-vindos ao Paraíso traz a história dessas mulheres tão fortes e que parecem destemidas, percebemos o quanto elas são psicologicamente problemáticas e frágeis ao mesmo tempo, todas preocupadas com os problemas familiares, com seus problemas pessoais e com a ânsia de prosperarem a todo custo.

"Margot e Delores apostam em Thandi como aquela que vai vencer na vida... Thandi é aquela fonte da qual elas depositam seus sonhos e esperanças. "É você que bai tirar a gente dessi lugar", dizem para ela. Ela escuta Delores dizendo isso às amigas também quando elas vêm para as partidas de dominó. Ninguém sabe como é sufocante o peso da culpa de Thandi quando elas a dispensam de cozinhar, limpar e até de ir à igreja por causa da importância que dão aos estudos dela."

O enredo consegue nos surpreender com situações inesperadas, tristes, obscenas e é impossível não se refletir muito sobre as circunstâncias miseráveis que muitas pessoas vivem para conquistarem seu ganha pão, submetendo-se a vender seu próprio corpo ou agirem como cafetão. 

"Minha pergunta pra você, Senhorita Toda Poderosa, é como um homem como essi pódi deixar a linda esposa pur alguém como você? Cê acha qui os homem quer uma minina negra pra dar os braços em público? Eles ti quer pra foder. Não pra casar. Então, cê si coloque no teu lugar."


Um contraste enorme quando observado o "outro lado" da Jamaica: o do turismo, o do luxo e do poder. O quanto o desenvolvimento turístico da Jamaica proporciona uma série de efeitos colaterais para a população nativa que vai perdendo seu espaço, sua dignidade, seu orgulho.

Bem-vindos ao Paraíso também nos coloca diante de dicotomias sobre o certo e o errado, sobre as crenças hipócritas, o julgamento ferino, a cultura e as leis da Jamaica que são capazes de nos chocar em diversos momentos.
Confesso que, no começo de Bem-vindos ao Paraíso me vi odiando as personagens, detestando seus comportamentos, o relacionamento entre Margot e sua mãe Delores, as cobranças da família com Thandi, o tratamento que Margot dispensava a Verdene, e a ânsia dessas mulheres em quererem ter mais e mais dinheiro para tentar mudar o futuro, para serem reconhecidas, quando elas mesmas menosprezavam sua própria cor, seu próprio orgulho, seus sonhos.

"Não tinha tempo para pensar sobre o que gostava e não gostava. Só tinha qui trabalhar. Aprendi o valor do dinheiro. É o único jeito da gente sobreviver. I mesmo si o dinheiro não pode comprar tudu, como classe i bom senso, pode comprar aceitação. É quando as pessoas ti dão atenção, ti aceitam como cê é. Cê pode ser meio burra ou feia como um camundongo, mas cada homem, cada mulher e cada criança ti respeitariam com um poco di dinheiro na tua carteira. Quando cê trabalha duro, algo bom acontece.... Mas si cê num fô cuidadosa, cê perde a própria sombra. A noção do teu propósito. Então, naquele dia em que você me deu aquele coração, eu o dobrei e guardei. Porque lembrei por que trabalho tanto fazendo o que faço. Você me deu algo que nunca soube que poderia vir de uma pessoa sem impor condições. Não tive de fazer nada por ele."


Depois, com o avançar do enredo, percebi que todas eram vítimas da sociedade que viviam, então tive pena delas e do destino tão cruel que elas compartilhavam. Além disso, eram vítimas do meio, de sua criação e do desejo de fugirem do padrão do "destino preestabelecido", mas impossibilitadas de quebrarem as correntes.

Realmente Bem-vindos ao Paraíso foi uma leitura extremamente marcante, mas devo admitir que não é um livro fácil de ler, a narrativa é um pouco lenta e os diálogos estranham um pouco, porque são transliterados (como conversas reais, sem estarem em norma culta) do patuá, uma versão do idioma falado pela população mais carente da Jamaica.

"As pessoas decepcionam a genti na vida. É assim qu'acontece... No fim do dia, nossa vida é isso. Olha em volta minina. Olha onde cê tá. Essi pedaço di terra vale mais qui a gente. Cê sente esse ar qui a gente respira? É dívida qui a gente faiz."

Contudo, é um livro potente, visceral e que dá voz a uma realidade pouco conhecida/refletida. Sem dúvida, amei a experiência de leitura e todas as reflexões e discussões que Bem-vindos ao Paraíso propôs, para completar gostei de saber um pouco mais sobe a Jamaica, inclusive pesquisei sobre várias coisas e descobri que lá a homossexualidade ainda é crime, dá para acreditar nisso? 

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