Resenha: Malorie (Caixa de Pássaros, vol.2) - Josh Malerman

terça-feira, agosto 25, 2020

Malorie, Josh Malerman. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020, 288 págs 
Tradução: Alexandre Raposo
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Saudações Leitores!
Malorie (2020) escrito pelo norte americano Josh Marlerman nada mais é do que a continuação do livro best-seller Caixa de Pássaros que ganhou adaptação pela Netflix (confira minha opinião sobre o filme Caixa de Pássaros). Por falar em filme, o autor já afirmou que haverá uma adaptação de Malorie e já está em desenvolvimento pela gigante do streaming e a Intrínseca compartilhou essa informação. Para quem acompanha o blog a mais tempo ou mesmo o canal já sabe que Caixa de Pássaros foi parar na minha lista de melhores leituras do ano de 2019.

A propósito, eu já postei vídeo no canal sobre Malorie então fiquem a vontade para conferir lá também!

A empolgação estava grande para ler Malorie, então, estar escrevendo esse veredito é bem desafiador, porque não creio que vou consegui falar TUDO o que tenho para dizer, mas vou tentar ser resumida e jogar as ideias principais que me vieram à tona. À propósito, esse veredito vai ter spoiller, porque preciso mencionar coisas do volume anterior e vou mencionar coisas desse volume para construir meus argumentos. Estejam avisados, beleza?

Minha expectativa para ler Malorie estava grande, ainda que não achasse que Caixa de Pássaros precisasse de continuação, pelo contrário, acredito que mesmo com o final aberto (que incomodou muita gente) foi genial, porque dá espaço para o leitor criar teorias e ter múltiplas interpretações, algo que realmente aprecio em livros e que me lembra bastante um dos meus livros favoritos da vida: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.


Portanto, assim que o volume de Malorie chegou nas minhas mãos já iniciei a leitura e, confesso que fiquei eletrizada e completamente imersa no enredo até 75% do livro, porém depois achei que tudo ficou meio genérico e até cansativo, não correspondendo muito com minhas expectativas, todavia, mesmo assim, este livro foi uma leitura MUITO BOA e pode responder as perguntas que ficaram pairando na mente de boa parte dos leitores.

Em Malorie, vamos acompanhar essa personagem icônica e seus dois filhos: Tom e Olympia, 12 anos depois dos acontecimentos do final de Caixa de Pássaros, que foi quando ela e os filhos finalmente conseguiram cruzar o rio e chegaram na Escola para Cegos Jane Tucker, porém, 2 anos depois de estarem vivendo "tranquilamente" na escola, Malorie e os filhos se vêem obrigados a fugirem de lá, pois um dos moradores da escola viu uma Criatura e enlouqueceu, levando o caos para dentro da escola.

Ela tenta fechar os olhos pela quarta, quinta, sexta vez. Quer comentar sobre como aquilo é injusto. Quer dizer isso para alguém da sua idade. Alguém nascido e criado antes da chegada das criaturas. Como é injusto uma mamãe e seus filhos terem de fugir subitamente do local que chamam de lá e sair para o mundo onde as ameaças são piores do que as que estão deixando para trás.Da histeria ao completo desconhecido.Os três, cegos, envoltos em tecidos, indo embora.Sozinhos.Outra vez.

Malorie, Tom e Olympia encontram o Acampamento Yadin e ficam lá durante 10 anos, até chegar um "homem do censo" fazendo uma pesquisa de sobreviventes, pois alega que algumas pessoas estão tentando levar uma vida "normal" e até mesmo criar formas de conviver com as Criaturas ou de poderem criar experimentos que possibilitem as pessoas voltarem a ver, inclusive diz até que há uma criatura capturada e um trem cego em funcionamento.

Malorie fica apavorada com as informações e age de forma cética, pois não acredita em ninguém,já que ela não pode ver as pessoas e muitas das pessoas que encontrou ao longo desses anos não foram todas pessoas boas.


Em contrapartida, Tom e Olympia - agora com 17 anos -  ouvem a notícia com ansiedade, medo, expectativa e esperança. Sobretudo, Tom que cresceu como um jovem cheio de questionamentos e ideias revolucionárias, se tornando um adolescente "rebelde", principalmente em relação a mãe que parece mais uma ditadora de regras e vive apenas pela "venda".

Já Olympia, ouve todas as notícia com medo e ao mesmo tempo esperança, pois ela se tornou uma adolescente "romântica", já que ama ler, aprender e adquiriu várias habilidades justamente por conta das regras de sua mãe. Mas não é somente isso, ela é uma jovem observadora, ela conhece a mãe e o irmão muito bem para saber o que ambos estão pensando antes mesmo deles mencionarem, e aqui já quero deixar claro que esta personagem foi uma das mais coerentes e sensatas durante todo o livro e só entendemos os motivos quase no final do livro.

As criaturas mudaram o modo como as pessoas experimentam a realidade. Isso não é novidade, é claro, Malorie, sempre uma filha do velho mundo, nunca vai se acostumar com isso. E se, como certa vez sugeriu Tom, o homem, for é uma questão de não sermos capazes de compreender as criaturas, de enlouquecermos ao vermos algo que nossas mentes simplesmente não conseguem assimilar... Por que não aconteceria a mesma coisa pelo toque? Será que qualquer encontro por meio de qualquer sentido constituiria uma experiência com algo impossível, algo incompreensível para nossas mentes?

É nesse ínterim, que Malorie, descobre, através das informações do "homem do censo", algo que poderá fazê-la encarar uma aventura "às cegas" até outra parte do país e assim, colocar em risco sua vida e a dos filhos. Porém, é neste momento, mesmo diante das dúvidas e incertezas que Malorie vai tomar uma das maiores decisões de sua vida após a fuga da Escola para Cegos Jane Tucker.

Basicamente, este é o enredo de Malorie e este mesmo tem várias partes intrigantes, certo? Só a sinopse já me deixou em polvorosa e ansiosa para ler o volume, porém, não vou dizer que tudo foram flores durante a leitura, teve várias teorias respondidas, mas muitas outras coisas ficaram sem menção e o final do volume foi o que mais me deixou a desejar, não pelo fato de não ter gostado, até gostei, mas achei que foi bem corrido, houve um bom desenvolvimento do enredo para entregar um final tão rápido, na minha opinião.


Então agora vou fazer menções a algumas partes, situações e tópicos que me levantaram questionamentos e/ou deixaram a desejar ou foram bem explorados em Malorie.

O primeiro ponto que quero falar é algo positivo e que chega até a ser o grande xeque-mate do volume: o relacionamento de Malorie com os filhos, sua relação com a maternidade, o conceito de maternidade em um mundo pós-apocalíptico que virou tudo de pernas para o ar.

Durante todo o volume, somos apresentados uma história que segue uma linha de tempo - de certo modo - cronológica e com uma narrativa em terceira pessoa, o que é bem interessante porque possibilita ao leitor ver as personalidades, pensamentos e ações de Malorie, Tom e Olympia, e como anda a relação dos três, bem como suas discussões e discordâncias.

E Malorie se pergunta: é verdade que tem mais medo dos homens do que das criaturas? Ela está sendo sincera consigo mesma quando diz que a pessoa que afirma ter capturado uma criatura é pior do que a suposta criatura capturada poderia ser?

Diante disso, podemos ver que Malorie se torna uma mãe super protetora com um instinto de sobrevivência muito grande, proporcionando uma criação bastante rígida e até abusiva, mas também necessária para a sobrevivência dos filhos, impedindo-os que eles experienciem várias coisas e até mesmo se fechem emocionalmente para ela, pois sabem que sua resposta é sempre "não".

Nesse ínterim, Malorie, está sempre em constante questionamento sobre a maternidade nesse novo mundo e como fazer a maternidade dar certo com dois jovens adolescentes teimosos. No entanto, algo me incomodou nessa dinâmica: o fato de Malorie não conversar e desabafar com os filhos se eles eram sua única companhia, não seria mais natural eles dialogarem mais, se abrirem e conversarem sobre o mundo e as Criaturas?

Por outro lado vemos que Tom e Olympia estão cientes desse relacionamento abusivo da mãe e, em decorrência disso acabam escondendo coisas, quebrando as regras e ficam ansiosos para poderem pensar por si mesmos e tomarem as próprias decisões, comportamentos absolutamente comuns em adolescentes.


Nesse ponto super entendi esses dois jovens, que estão querendo descobrir o mundo em que nasceram e agem até com uma certa soberba porque acreditam que tem mais capacidade de adaptação por conta de não conhecerem o "velho mundo", achando que a mãe é neurótica, abusiva e exagerada.

Todavia, se tem uma coisa que me revoltou e me deixou absolutamente magoada foi o fato de Tom perceber que o cuidado da mãe era amor, mas mesmo assim não confiar na mãe, mas preferir acreditar nas outras pessoas cegamente, sendo que há 17 anos foram as atitudes e cuidados da mãe que os mantiveram vivos. Malorie era completamente incompreendida pelo filho! Até entendo a questão de correr riscos e ser um jovem questionador, mas achei desprezível ele destratar, magoar e ignorar a mãe para ouvir alguém que ele não conhecia e que, claramente não podia ver.

Então, percebi que ler Malorie é exercitar a empatia e me colocar na posição de todos os personagens e imaginar como me sentiria, como eu agiria em um mundo como esse do livro e, assim, consegui entender mais os comportamentos de todos os três...

Mas, se você disser não para alguém por vezes demais, a pessoa começa a pensar "sim". Apenas para ouvir outra coisa, uma palavra diferente, vai pensar sim.

No entanto, não foram só estes pontos que observei, estes foram apenas os que gostei de ter sido mostrado porque questiona o leitor e nos leva a refletir, nos posicionarmos e é um verdadeiro exercício de imaginação e empatia.

Contudo, teve pontos que realmente me incomodaram, como por exemplo: mesmo não tendo flashbacks como houve em Caixa de Pássaros, gostaria que o livro tivesse mais informações sobre o que Malorie e os filhos passaram para sobreviver durante os últimos 12 anos. Senti muita falta de ter um cenário pós-apocalíptico mais aterrorizante, como o que encontrei em Caixa de Pássaros. Lembro que quando li Caixa de Pássaros, fiquei tensa em cada página e, no entanto, aqui, não temos essa mesma atmosfera de apreensão.


Em Malorie  não fazemos a menor ideia de como eles conseguem roupas, medicamentos, água (a não ser o fato de terem a sorte de encontrar poços e rios em abundancia - que privilégio!) e alimentos. Só sabemos que eles estão vivendo de enlatados, mas pera aí.... Após 17 anos do apocalipse ainda existem enlatados? E como eles acham tantos enlatados juntos e não há ninguém lutando por esses alimentos? Como esses enlatados ainda não apodreceram depois de 17 anos? OK, pode haver uma crítica a esta indústria, mas mesmo assim... isso me pareceu vago, incoerente. Não me convenceu.

Pela força que Malorie tinha no primeiro livro esperei que ela fosse tentar reconstruir a vida e não ficar neurótica ou parecendo um pássaro numa gaiola. Em momento algum há questionamentos sobre a escassez de recursos alimentícios, etc.

Depois de todo o perrengue - mais realista - que Malorie e os filhos passaram para sobreviver em Caixa de Pássaros, realmente, neste volume de Malorie eles estão bem privilegiados e vivendo relativamente bem para um mundo que não enxerga e onde não se pode confiar em ninguém. Fiquei meio frustrada com isso, porque foi contra o caos, o poder, a loucura do volume anterior, de modo que tirou um pouco o "brilho" de Caixa de Pássaros.

Outra coisa que me incomodou foram as teorias sobre as Criaturas, eram teorias demais, informações demais e tudo não parecia levar a lugar nenhum e quando levou, percebi que tínhamos a resposta desde Caixa de Pássaros.

Quantas vezes uma pessoa pode fechar os olhos? Quão negra pode se tornar sua escuridão pessoal?

Mais um ponto sensível nessa história é o reaparecimento de Gary, achei tão desnecessário esse personagem ficar "perseguindo" a Malorie, sinceramente, não encontro justificativa para essa obsessão dele e, por ele ter passado 12 anos sem fazer nada e de repente fazer.

Definitivamente, essa foi a parte que mais me desagradou, mesmo o personagem tendo papel fundamental para a condução de algumas coisas, entretanto, acho que poderia ter aparecido outro personagem para fazer o que ele fez. Honestamente, pareceu-me que Josh Malerman queria que Malorie se vingasse e fizesse algo que a tornava "similar" a Gary. E essa parte foi bem maçante. (A propósito, ao se pensar na adaptação de Malorie, deve haver mudanças aqui, já que no filme Caixa de Pássaros, Tom matou Gary, ou seja, provavelmente ele não vai existir na nova adaptação o que, pra mim, vai ser bem melhor, já que achei a participação dele absolutamente desnecessária).

Caso você tenha chegado até aqui, pode parecer até que não gostei de Malorie depois de tudo o que elenquei, não é? Mas a verdade é que GOSTEI BASTANTE, só que realmente talvez pelo livro não ter correspondido a todas minhas expectativas e também por achar que Caixa de Pássaros não precisasse de continuação, não consegui ver o volume como incrível, mas foi uma leitura muito boa.


Sempre acho que a busca ou a tentativa de dar ou gerar respostas para Caixa de Pássaros em Malorie pode ter tirado um pouco do brilho dessa história tão incrível, intimamente acredito que finais apocalípticos ou pós-apocalípticos não dever ser pautados em tanta lógica assim ou ter uma resposta bonitinha para cada pergunta, porque na vida real estamos sempre buscando por respostas e isso não pressupõe que algum dia iremos encontrá-las. Para mim, isso é mais real, sabe?

Falando em lógica, tem mais um ponto bastante legal e questionador em Malorie: a existência de Indian River, uma "sociedade" revolucionária que quer mudar o mundo e onde tem pessoas que se "sacrificam" em busca de respostas, a fim de encontrar uma saída para a humanidade. Talvez essa seja uma das maiores sacadas desse livro, pois fiquei me questionando se todos os sacrifícios que aconteciam na cidade era por conta da ousadia de cada morador, se as pessoas eram iludidas com o discurso do "representante" que tinha tanto poder de fazerem as pessoas preferirem enlouquecer a fim de se tornarem heróis por estarem tentando encontrar uma nova forma de viver.

O homem é a criatura a ser temida.

Josh Malerman traz um questionamento incrível sobre O PODER DA PALAVRA e como sempre haverá pessoas que sabem construir seus discursos de maneira a camuflar suas reais intenções e incentivar as pessoas a fazerem coisas que elas próprias não tem coragem de fazer, fazendo parecer que ELAS ESCOLHERAM, que estão FAZENDO O QUE É CERTO, sendo que é uma sociedade de pessoas que não podem ver guiando outras pessoas que também não conseguem ver.

Em suma, mesmo não tendo achado Malorie um livro perfeito, Josh Malerman tem uma forma fabulosa de contar histórias, de nos conectar com os personagens e de nos intrigar a ponto de não conseguirmos largar o livro, além disso, traz uma série de temas dignos de reflexão: maternidade, sociedade, expectativas, ousadia, esperança e até mesmo traz questionamentos mais importantes para observarmos TUDO ao nosso entorno com olhos mais críticos e refletirmos sobre como nossas próprias decisões estão pautadas a pensamentos de outras pessoas, a forma como fomos criados, ao que está em nosso entorno ou se fomos "arrebatados" por algum discurso distorcido....

Honestamente, para mim, Caixa de Pássaros não precisa de continuação, mas já que a tivemos Malorie, gostei muito de conferir, aliás, acho que para quem já leu Caixa de Pássaros, deveria conferir e tirar suas próprias conclusões.

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