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A Filha Perdida - Elena Ferrante (resenha)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

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Em A Filha Perdida, Elena Ferrante entrega uma narrativa curta, intensa e memorável.

Saudações, Leitores!

A Filha Perdida, de Elena Ferrante, é uma dessas leituras que a gente começa achando que será curta e simples, afinal, é um livro pequeno, e termina com a sensação de ter levado um soco silencioso no estômago. Li em um único dia, não porque seja confortável ou leve, mas justamente porque é inquietante, desconfortável e absurdamente real. É daqueles livros que não permitem pausas longas: ou você segue, ou o incômodo te persegue.

Antes de entrar na história, vale falar um pouco sobre Elena Ferrante, essa autora que é quase um enigma. Ferrante é um pseudônimo, e sua identidade real segue desconhecida, o que só aumenta o fascínio em torno de sua obra. Autora consagrada, ficou mundialmente famosa com a Tetralogia Napolitana (A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida), além de outros livros igualmente intensos como A Vida Mentirosa dos Adultos e Um Amor Incômodo, que já li e resenhei aqui. Sua escrita é marcada por uma honestidade brutal, especialmente ao tratar de temas como maternidade, identidade feminina, culpa, desejo e ambivalência emocional.

Em A Filha Perdida, acompanhamos Leda, uma mulher madura, professora universitária, divorciada e mãe de duas filhas já adultas. Durante férias solitárias em uma praia italiana, ela passa a observar obsessivamente uma jovem mãe, Nina, e sua filha pequena. Esse olhar aparentemente banal desencadeia uma série de lembranças, reflexões e confissões internas que vão nos levando para o centro do livro: o lado não romantizado da maternidade.

O ponto de virada e quem leu sabe exatamente do que estou falando acontece com o desaparecimento da boneca da criança, um objeto simples, quase insignificante à primeira vista, mas carregado de simbolismo. A partir daí, Ferrante constrói uma narrativa psicológica sufocante, onde cada gesto de Leda revela camadas profundas de culpa, desejo, egoísmo e sobrevivência emocional. A boneca não é só uma boneca; ela representa a maternidade, o vínculo, a responsabilidade e também o peso que tudo isso pode carregar.

O que torna essa leitura tão perturbadora é o modo como Ferrante nos obriga a encarar pensamentos que socialmente são considerados inaceitáveis. Leda admite, sem rodeios, que abandonou as filhas por alguns anos para seguir sua carreira e sua própria identidade. E não há aqui tentativa de suavizar isso para agradar o leitor. Não existe pedido de desculpas, não existe redenção fácil. Existe apenas a verdade nua e crua: amar um filho não apaga o cansaço, o ressentimento, a perda de si mesma.

A narrativa é toda construída a partir do fluxo de consciência de Leda, o que torna a leitura ainda mais claustrofóbica. Estamos dentro da mente de uma mulher que analisa cada gesto passado, cada falha, cada escolha, sem se poupar e sem poupar o leitor. É impossível sair ileso. Em vários momentos me peguei desconfortável, julgando Leda… até perceber que o livro faz justamente isso: nos colocar frente a frente com nossas próprias idealizações sobre maternidade e feminilidade.

Ferrante escreve de forma direta, sem floreios, mas com uma intensidade emocional que poucas autoras conseguem alcançar. Não há capítulos longos, nem grandes acontecimentos externos; tudo acontece no interior da personagem. E é por isso que o livro funciona tão bem: porque ele parece real demais. Não é uma história para agradar, é uma história para provocar.

A Filha Perdida não é um livro fácil, nem acolhedor, nem reconfortante. Mas é necessário. Ele questiona o que significa ser mãe, ser mulher, ser indivíduo, e até que ponto essas identidades conseguem coexistir sem fraturas. Terminei a leitura com aquela sensação estranha de silêncio interno, como se o livro continuasse ecoando mesmo depois da última página.

Definitivamente, não é uma leitura para quem busca conforto. Mas para quem gosta de livros que incomodam, provocam e permanecem, Elena Ferrante entrega aqui uma narrativa curta, intensa e memorável.

Obrigada por terem lido até aqui e, como sempre, seguimos lendo, mesmo quando dói. Até a próxima postagem! 

FICHA TÉCNICA
Título Original: La Figlia Oscura
Autor: Elena Ferrante
Tradutor: Marcello Lino
Gênero: Ficção. Drama. Romance Psicológico.
Editora: Intrínseca
Ano: 2006-2016 | 176 págs.
País de Origem: Itália.
Classificação: +15
Aviso de Conteúdo: Traição. Roubo. Pensamentos Intrusivos.
Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐(4/5)

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