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Terra das Mulheres - Charlotte Perkins Gilman (resenha)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

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Terra das Mulheres é extremamente ousado e disruptivo

Saudações, Leitores!

Terra das Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman, é uma leitura que surpreende justamente por ter sido escrita no início do século XX e, ainda assim, dialogar de forma provocativa com debates que continuam extremamente atuais. Confesso que comecei essa leitura com curiosidade acadêmica, afinal, trata-se de uma obra frequentemente citada quando falamos de literatura feminista e utópica, mas terminei o livro genuinamente impactada pela ousadia intelectual da autora que comprovadamente estava à frente de sua época.

Charlotte Perkins Gilman foi uma escritora, socióloga e ativista feminista norte-americana, mais conhecida também pelo conto O Papel de Parede Amarelo, uma narrativa curta, sufocante e simbólica sobre opressão feminina e saúde mental. Em Terra das Mulheres, publicado originalmente em 1915, Gilman amplia esse debate e constrói uma sátira social travestida de utopia, usando a ficção como ferramenta de crítica às estruturas patriarcais.

A história acompanha três homens: Van, Terry e Jeff, que, durante uma expedição, acabam descobrindo um país isolado do resto do mundo, habitado exclusivamente por mulheres. Esse lugar, a Terra das Mulheres, existe há mais de dois mil anos sem a presença masculina, após uma catástrofe que eliminou todos os homens da região. Desde então, as mulheres se reproduzem por partenogênese e constroem uma sociedade organizada, pacífica, racional e altamente funcional.

O que mais chama atenção no livro não é exatamente a trama, que é simples e até linear, mas o choque de perspectivas. Gilman utiliza os três personagens masculinos como arquétipos: Jeff, o romântico idealizador; Van, o narrador mais equilibrado e observador; e Terry, o machista convicto, incapaz de conceber um mundo em que as mulheres não estejam em posição de submissão e prontas para lhe satisfazer as vontades, sobretudo as sexuais. E é justamente através das reações desses homens que a crítica da autora se torna afiada.

À medida que eles conhecem a Terra das Mulheres, tudo aquilo que consideram natural sobre gênero, maternidade, casamento, educação e trabalho começa a ruir. A maternidade, por exemplo, é tratada como uma função social coletiva, não como um fardo individual imposto às mulheres. As crianças são educadas de forma comunitária, com foco no bem-estar coletivo e no desenvolvimento intelectual e emocional, algo que, para os visitantes, soa quase subversivo.

Gilman questiona com ironia o quanto do que chamamos de instinto feminino é, na verdade, construção social. O desconforto masculino diante de mulheres autônomas, racionais e não sexualizadas revela muito mais sobre eles do que sobre aquela sociedade utópica. E aqui está um ponto interessante da leitura: Terra das Mulheres não é exatamente um manual de perfeição, mas um espelho distorcido que evidencia as falhas do mundo real.

A escrita de Gilman é direta, didática em alguns momentos, e claramente comprometida com a exposição de ideias. Não é um romance que aposta na emoção ou na profundidade psicológica dos personagens, mas sim na força do argumento. Em certos trechos, a narrativa pode parecer mais ensaio do que ficção, o que pode afastar leitores que buscam maior envolvimento emocional. Ainda assim, é impossível negar a potência do que está sendo discutido ali.

Há também limitações evidentes, especialmente quando olhamos a obra com os olhos de hoje. A visão de mundo apresentada é homogênea demais, pouco diversa, e carrega marcas claras do pensamento de sua época. Mesmo assim, considerando o contexto histórico, Terra das Mulheres é extremamente ousado e disruptivo.

O que mais me marcou foi perceber o quanto essa leitura continua desconfortável, especialmente para quem nunca parou para questionar estruturas que naturalizamos. Gilman não escreve para agradar, mas para provocar. E provoca ao mostrar que muitas das desigualdades de gênero não são inevitáveis, mas escolhas sociais reproduzidas ao longo do tempo.

Terra das Mulheres é uma leitura que exige atenção, reflexão e, principalmente, disposição para o incômodo. Não é um livro perfeito, nem pretende ser, mas é um texto fundamental para quem se interessa por literatura feminista, distopias/utopias e críticas sociais. Terminei a leitura com mais perguntas do que respostas e, honestamente, livros assim costumam ser os que mais valem a pena.

Obrigada por ter lido até aqui e fique a vontade para comentar, até a próxima postagem!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Herland
Autor: Charlotte Perkins Gilman
Tradutor: Flávia Yacubian
Gênero: Ficção. Utopia.
Editora: Rosa dos Tempos
Ano: 1915-2018 | 256 págs.
País de Origem: Estados Unidos.
Classificação: +15
Aviso de Conteúdo: Tentativa de Estupro. Machismo. Feminismo. Racismo. Superioridade de sexos. Prisão. Assassinato
Minha avaliação: ⭐⭐⭐(3/5)

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