Como Água para Chocolate foi uma leitura envolvente, sensorial, quase tátil, daquelas em que você sente o cheiro da comida, o calor da cozinha, o peso das tradições e o gosto agridoce das escolhas impossíveis.
Saudações, Leitores!
Esse foi um dos livros em que conheci primeiro a adaptação e depois me debrucei na obra. Estava na HBO olhando o catálogo quando me deparei com Como Água para Chocolate, assisti ao primeiro episódio sem saber nada e descobri que era baseado na obra com o mesmo título da mexicana Laura Esquivel. Após essa descoberta, dei pausa na série e fui ler o livro. Ler não, devorar! Hoje que posto a resenha além de ter finalizado a leitura já assisti toda a 1ª temporada e sigo acompanhando a 2ª temporada, quando concluir venho trazer veredito da série para vocês.
A título de curiosidade quero de início formalizar que finalizei a obra sem entender direito esse título, sei que a obra traz muitas referências culinárias, mas eu não entendi o motivo desse título, então resolvi pesquisar e que bom que fiz isso, porque agora o título faz todo o sentido! "Como água para chocolate" trata-se de uma expressão idiomática mexicana que quer dizer "estar com as emoções a flor da pele, à beira de uma explosão" (seja de raiva, paixão, desejo) semelhante à água fervendo para fazer chocolate.
Como Água para Chocolate, publicado originalmente em 1989, traz uma história que chamamos de Realismo Mágico (ou Fantástico) que se passa no México no início do século XX, em meio aos ecos da Revolução Mexicana e embora o contexto histórico e político esteja no pano de fundo da narrativa e tenha vários desdobramentos para todos os personagens, o verdadeiro campo de batalha aqui é o espaço doméstico: a casa, a cozinha, as regras e tradições familiares.
É nesse cenário que vamos acompanhar o drama de Tita que desde a infância se vê relegada pela mãe e quando a menina aprende a cozinhar passa a expressar todos os seus sentimentos reprimidos através de seus pratos mágicos, pois as pessoas que o comem sentem todas as emoções que Tita utilizou enquanto os cozinhava.
Deixem-me explicar melhor o enredo: Tita é a filha mais nova da família De la Garza e nasce literalmente na cozinha, portanto e é ali que sua história se enraíza. Segundo a tradição imposta por sua mãe, Elena, a filha caçula não pode se casar, pois deve permanecer solteira para cuidar da mãe até sua morte. Quando Pedro, o homem que Tita ama desde a infância, pede sua mão em casamento, a resposta é cruelmente previsível. Ele acaba se casando com Rosaura, a irmã de Tita, apenas para permanecer perto dela.
O que poderia ser apenas um romance proibido ganha contornos únicos porque, em Como Água para Chocolate, as emoções não ficam contidas, elas transbordam nos pratos preparados por Tita. Cada capítulo começa com uma receita e se passa em um mês do ano, e cada receita carrega sentimentos que contaminam literalmente quem a consome. Tristeza vira enjoo coletivo. Paixão vira combustão. Desejo vira febre. É surreal de tão bom e tão sensual.
O livro é um belo exemplo de realismo mágico latino-americano. Aqui, o extraordinário não é explicado, é simplesmente aceito. A comida provoca reações sobrenaturais. Espíritos aparecem. As emoções materializam-se. Mas nada disso soa absurdo. Pelo contrário: parece a única forma possível de traduzir sentimentos que são grandes demais para caber no realismo puro.
O mágico, nesse romance, não é escapismo. É intensificação. É a maneira que Laura Esquivel encontra para falar sobre repressão, desejo, opressão feminina e tradição sufocante.
Ambientado durante a Revolução Mexicana, o livro sugere uma interessante camada simbólica: enquanto o país luta por transformações estruturais, Tita luta por liberdade dentro de casa. A revolução coletiva contrasta com a revolução íntima.
A tradição que impede Tita de casar é o retrato de uma sociedade patriarcal em que as mulheres são aprisionadas por regras não escritas, sustentadas pelo “sempre foi assim”. A mãe Elena é a personificação dessa rigidez: autoritária, dura, fria, quase impenetrável. Mas até ela carrega segredos que revelam as contradições desse sistema.
Entre os personagens, também se destacam Gertrudis, cuja trajetória rompe de forma mais explosiva com as expectativas impostas, e Pedro, que encarna um amor intenso, mas muitas vezes passivo demais diante das injustiças. Cada personagem representa uma forma diferente de lidar com desejo, repressão e liberdade.
É obvio que ver o destino de Tita que inconformada aceita estar perto do homem amado e vê-lo com sua irmã, construindo uma família vai partindo a leveza e a felicidade da personagem cujos pratos mudam constantemente de sabores. Já Pedro, confesso, dá um pouco de raiva do personagem por ele ter aceitado e não ter lutado por Tita, sempre fiquei pensando: porque esse homem não convida ela para fugir! Essa passividade de Pedro me deixava com vontade de dar um solavancos nele, um homem desse mimadão, que não se atreve a lutar por Tita e acaba se deixando ser infeliz com Rosaura.
Apesar desse paspalhão do Pedro eu amei, amei o livro porque é absolutamente intenso sem ser excessivo. Porque ele mistura romance, crítica social, humor, tragédia e fantasia com uma naturalidade impressionante. Porque a escrita é fluida, mas carregada de simbolismo. Porque a cozinha deixa de ser apenas espaço doméstico e se torna território de resistência, isso não é lindo?!
Sem dúvida Como Água para Chocolate é um livro que fala sobre mulheres que sentem demais em um mundo que tenta ensiná-las a sentir menos e a não se expressarem, mas que pela sua força e garra vão conquistando espaços e sua felicidade na marra.
Pra finalizar, esse romance já foi adaptado para o cinema em 1992 (e quero assistir ao filme também), sendo um dos filmes mexicanos de maior sucesso internacional e ano passado teve o lançamento da 1ª temporada de uma série que eu estou amando!
Acredito que o leitor que gosta de realismo mágico pode se encantar com Como Água para Chocolate e acredito que gostei mais desse livro porque já li Cem Anos de Solidão e estava preparada para a suspensão de crenças.
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: Como Agua para Chocolate Autor: Laura Esquivel Tradutor: Olga Savary Gênero: Ficção Realismo Mágico. Editora: Martins Fontes Ano: 1989-2016 | 208 págs. País de Origem: México Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Violência Doméstica. Guerra. Assassinato. Luto. Morte de bebê. Traição entre Casal. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5) |

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