O Avesso da Pele é um livro incômodo, mas extremamente necessário, acredito que alguns livros precisam justamente nos tirar da nossa zona de conforto
Saudações, Leitores!
O Avesso da Pele (2020) é um romance do escritor brasileiro Jeferson Tenório, autor gaúcho que ganhou grande destaque na literatura contemporânea brasileira tanto porque sua obra foi vencedora do Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2021 (sendo o 1º autor negro a ganhar esse prêmio na categoria - pelas minhas pesquisas) e porque esse mesmo livro em 2024 foi censurado em algumas redes de ensino do Estado do Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul com a justificativa de ter um vocabulário impróprio. ME POUPE! Quem ler vai saber de cara que isso é um absurdo, mas que o volume trata-se de uma narrativa marcada pela memória, pela identidade e pelas relações raciais no Brasil ou seja vai tocar muito fortemente no racismo estrutural constante diariamente em nosso país e esse tópico, é claro, incomoda muita gente.
A história é narrada por Pedro que, após a morte do pai, Henrique, depois de uma abordagem policial bem problemática, tenta reconstruir sua trajetória e compreender quem foi aquele homem para além da figura paterna. Como Pedro fará isso? Observando o passado, cartas, objetos e tentando desvendar quem o pai foi, o que viveu e como se tornou quem era... como ele chegou até seu último suspiro e aquela grande questão: será que sua vida toda foi marcada pela cor de sua pele? A partir das lembranças, das histórias familiares e das experiências de Henrique, vamos conhecendo este professor negro que viveu diferentes formas de racismo, preconceito e violência, inclusive dentro do ambiente escolar e a própria construção do seu "eu" no mundo e como essa vivência dele tem repercutido na vida do filho, Pedro, também. Pedro ao lembrar e narrar a história de seu pai, vai construindo sua identidade, suas nuances.
Este volume, sem dúvida, é mais do que uma história sobre o pai que o filho buscava compreender, O Avesso da Pele fala sobre racismo estrutural, violência, educação, relações familiares, identidade e as marcas que carregamos daqueles que vieram antes de nós. Talvez por eu ser educadora, fiquei muito sensibilizada pela profissão de Henrique e por perceber que a escola ocupa um espaço muito importante na narrativa, pois ele tinha vontade de transformar a vida de seus alunos e isso me fez refletir sobre o fato de que Henrique passa por uma realidade de muitos professores ao tentar exercer seu trabalho em um ambiente em que muitas vezes parece impossível de se ensinar, dialogar ou simplesmente ser ouvido, tanto pelo próprio sistema educacional, como pelos colegas professores e pelos alunos.
Realmente gostei muito da leitura e achei o livro extremamente reflexivo, mas confesso que algumas passagens me deixaram triste, o confrontar o racismo estrutural que está tão imbuído no cotidiano e que vai ser difícil exorcizar, o quanto é tudo tão normalizado para pretos e brancos que mudar o que está acontecendo demanda uma verdadeira transformação social. Outro ponto que me comoveu foi a descrição tão realista da educação. É contraditório pensar que repetimos constantemente que a educação é uma das principais ferramentas para transformar vidas e promover socialmente as pessoas, enquanto existem escolas atravessadas por drogas, violência, desigualdade, racismo e falta de interesse dos próprios alunos. E os professores? Muitas vezes estão ali tentando, tentando de verdade, mas como chamar a atenção daqueles jovens que não querem estar naquele espaço?
Em O Avesso da Pele me vi diante de uma narrativa muito lúcida sobre o racismo, como ele nos coloca diante de situações que TODOS já fizemos ou presenciamos em algum momento de nossas vidas. Além da reflexão de como ensinar quando o professor também está lidando com problemas que ultrapassam completamente aquilo que deveria ser sua função. A leitura me fez pensar muito.
Aqui eu quero fazer só uma observação: eu acredito que a escola transforma vidas, mas também acho perigoso romantizarmos a ideia de que basta colocar uma criança ou adolescente dentro de uma sala de aula para que tudo se resolva. Existem questões sociais, familiares e estruturais (como o racismo, o preconceito, etc.) que atravessam esse processo. Jeferson Tenório expõe justamente essas feridas e faz isso de uma maneira que nos obriga a olhar para aquilo que muitas vezes preferimos não enxergar, porque é impossível não gerar incomodo ou nos deixar tristes, machucados e nos sentirmos impotentes.
Recomendo O Avesso da Pele para leitores que gostam de literatura brasileira contemporânea e narrativas que provocam reflexões sobre questões sociais, um livro incômodo, mas necessário, ou seja não é uma leitura confortável, mas acredito que alguns livros precisam justamente nos tirar da nossa zona de conforto.
Espero que esta resenha tenha despertado sua curiosidade para conhecer a obra.
Muito obrigada por ler até aqui e até a próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: O Avesso da Pele Autor: Jeferson Tenório Tradutor: - Gênero: Ficção. Nacional. Editora: Companhia das Letras Ano: 20 | 192 págs. País de Origem: Brasil Classificação: +14 Aviso de Conteúdo: Racismo. Violência armada. Injúrias raciais. Violência. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐ (4/5) |

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