Acho que fui com sede demais ao ler Oração para Desaparecer, mas mesmo não sendo o que eu esperava o livro me surpreendeu pelas reflexões que trouxe
Saudações, Leitores!
Finalmente li Oração para Desaparecer da escritora brasileira (e minha conterrânea cearense) Socorro Acioli, mesma autora de A Cabeça do Santo (que li recentemente). No entanto, para ser honesta, acho que fui com sede demais ao pote: li o livro, mas em suas 208 páginas estive desconectada, compreendi o que estava acontecendo, mas não me empolguei com os acontecimentos, tampouco com os personagens e isso é umas lástima, mas eu queria vir falar sobre ele porque o volume tem seus louros e preciso divulgá-lo.
A história começa de uma maneira bastante curiosa e imprevista onde vamos acompanhar uma mulher é encontrada enterrada em Almofala, em Portugal, sem memória, sem saber seu nome e sem conseguir explicar de onde veio. Ela é acolhida por Fernando e Florice, um casal de idosos que já conhece histórias de pessoas que ressurgem da terra e que já "resgataram" algumas dessas pessoas, portanto acabam dizendo que a mulher aos poucos vai lembrar de sua história. Com o passar do tempo e a personagem não relembrando o casal passa a chamá-la de Cida, ou Aparecida. Aos poucos, ela começa a reconstruir sua vida, mesmo sentindo esse vazio, nesse ínterim, ela se aproxima de Jorge, enquanto tenta entender quem foi e como chegou até ali.
Confesso que achei extremamente criativo e bizarro uma mulher ser desenterrada viva e ao longo da narrativa de Oração para Desaparecer ficamos a par dos mistérios dos ressurrectos e a "mitologia" que gira em torno dessa história. E aqui entra uma das coisas mais interessantes do livro: a história não fica somente em Portugal. A narrativa também nos leva para Almofala, no interior do Ceará, e para o passado de Joana e Miguel. As histórias vão se aproximando e criando uma espécie de ponte entre tempos, lugares e personagens, misturando amor, memória, ancestralidade, religiosidade e realismo mágico. A estrutura é dividida em três partes e trabalha diferentes vozes e formas de contar essa história e a medida que a narrativa vai se aprofundando vamos percebendo que a Cida e a Joana eram uma só e vamos destrinchando o que levou a vida dela para uma outra Almofala em outro continente ser encontrada soterrada.
Apesar de não ter conseguido me conectar com a leitura, preciso reconhecer que Socorro Acioli tem uma imaginação muito interessante. A ideia dos "ressurrectos", a mulher que surge da terra sem memória e a maneira como a autora mistura acontecimentos históricos, lendas, religiosidade popular e fantasia são elementos muito criativos. É fantástico a pesquisa histórica da autora, isso é inquestionável. Inclusive, a origem do romance é curiosa: a autora se inspirou na fotografia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Almofala, no Ceará, que foi soterrada pelas dunas e posteriormente ressurgiu. Durante suas pesquisas, Acioli também encontrou uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre a história de Joana Camelo e os Tremembé, elementos que acabaram entrando na construção do romance, incrível, não é? O que me empolga mais é saber que a autora não vai longe para contar suas histórias, ela preza pela história cearense, ela preza por nossa ancestralidade e vê que temos uma história rica e fantástica pronta para ser escrita e contada.
Quanto mais eu penso, percebo que o que aconteceu comigo foi mais uma questão de conexão do que de qualidade. Eu conseguia enxergar a proposta, perceber as camadas e entender a simbologia, mas não consegui sentir aquela vontade de continuar lendo que tive com A Cabeça do Santo. Talvez tenha sido justamente a expectativa alta depois de ter gostado tanto do outro livro da autora. Também achei que algumas partes poderiam ter me provocado mais emocionalmente, principalmente porque a história tem ingredientes para ser muito impactante. Ainda assim, gosto da maneira como Socorro Acioli trabalha memória e pertencimento e da ideia de que desaparecer também pode ser uma forma de sobreviver, enquanto lembrar pode significar finalmente recuperar uma parte de si. No fim, talvez o livro tenha funcionado mais para mim como uma ideia interessante do que como uma experiência literária apaixonante, e acho importante dizer isso. Talvez os personagens não me cativaram tanto, acho que eu queria ter me aproximado mais deles, das emoções, dos medos, dos anseios, dos momentos de felicidade... Eu simplesmente só acompanhava seus passos, como se não conseguisse me envolver... Talvez se eu relesse.... Não sei.
Apesar da minha experiência, recomendo Oração para Desaparecer para quem gosta de realismo mágico, literatura brasileira contemporânea, histórias de amor que atravessam o tempo e narrativas que misturam memória, ancestralidade e religiosidade. É um livro curto, criativo e com bastante material para reflexão, consigo entender por que a obra conquistou tantos leitores e reconheço seus méritos.
Espero que tenham gostado da resenha e, principalmente, que ela tenha mostrado que nem toda leitura precisa ser cinco estrelas para valer a pena ser comentada e ser lida, acho que esse livro pode tocar diferentes tipos de leitores de formas diferentes, certamente em mim ela deixou sua marca.
Muito obrigada por ler até aqui e até a próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: Oração para Desaparecer Autor: Socorro Acioli Gênero: Ficção. Realismo Mágico. Romance. Editora: Companhia das Letras Ano: 2023 | 208 págs. País de Origem: Brasil Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Luto. Assassinato. Pessoa Enterrada. Perda de memória. Minha avaliação: ⭐⭐⭐ (3/5) |

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