Sociedade Paliativa tem uma voz extremamente potente justamente porque não romantiza a dor, mas nos faz pensar sobre a tentativa desesperada de eliminá-la completamente
Saudações, Leitores!
Fiquei pensando se escrevia a resenha de Sociedade Paliativa: A Dor Hoje (Palliativgesellschaft: Schmerz heute, 2020), pois é mais comum eu publicar resenhas de livros de literatura, mas acredito que vez por outra vale a pena a gente se aprofundar em outras temáticas por aqui, porque quando lemos algo incrível e revolucionário temos que compartilhar a ideia.
Sociedade Paliativa: A Dor Hoje (Palliativgesellschaft: Schmerz heute, 2020) é uma obra do filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, um dos pensadores contemporâneos mais conhecidos por suas análises sobre a sociedade atual. Autor de livros como Sociedade do Cansaço, Sociedade da Transparência, entre outros, Han costuma refletir sobre o modo como vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e, sobretudo, como nos tornamos sujeitos cada vez mais cansados, individualizados e submetidos à lógica do desempenho. Neste pequeno volume, o autor se debruça sobre algo que parece simples, mas que é profundamente complexo e assustador: a dor.
Talvez a pergunta que percorre todo o volume seja esta: o que acontece com uma sociedade que não quer mais sentir dor?
Vivemos tentando eliminar qualquer desconforto. Não queremos sofrer, esperar, frustrar-nos, adoecer, envelhecer, perder ou sequer ouvir aquilo que nos incomoda. Quando isso ocorre, nosso instinto atualmente é que tudo precisa ser resolvido rapidamente, anestesiado, medicado, silenciado, entramos num processo de fuga ou transformado em algo positivo. Para Han, essa aversão à dor, a chamada de algofobia, ultrapassa o sofrimento físico e se espalha por todas as dimensões da vida. A dor se torna algo que precisa desaparecer, como se uma vida boa fosse necessariamente uma vida sem sofrimento, porém se levarmos em consideração que só podemos conhecer o que é bom se soubermos o que é ruim, percebemos que a dor é um fenômeno natural e mais: essencial, portanto: por que queremos fugir dela a todo custo?
O problema é que, segundo o autor, ao tentarmos expulsar toda negatividade da existência, também vamos perdendo algo fundamentalmente humano. A dor nos transforma, nos obriga a olhar para aquilo que não funciona, pode nos colocar diante do outro e, principalmente, pode nos fazer questionar. Uma sociedade que só quer ser feliz, produtiva e positiva corre o risco de não conseguir mais elaborar o sofrimento e, pior ainda, de não perceber o sofrimento que está acontecendo ao seu redor, ou seja, uma sociedade que carece de empatia, normaliza e generaliza tudo. Han relaciona essa lógica à cultura do desempenho, da auto-otimização e até à necessidade constante de aprovação e de "curtidas". Nada deve incomodar. Nada deve ferir. Tudo precisa ser agradável, consumível e, de preferência, instagramável. Não se mostra mais a dor, ou melhor: a dor é muitas vezes mostrada de forma excessiva e com tantos outras manipulações de narrativa que algo tão difícil passa a ser banal, natural e já não considerado mais dor. Quando vemos a dor ela já está tão naturalizada que não temos mais empatia, não nos choca, torna-se muitas vezes apenas um número e um dado.
E foi justamente aí que o livro mais me pegou. Porque fiquei pensando em como estamos, aos poucos, nos dessensibilizando. Vemos guerras, violências, mortes, injustiças e atrocidades todos os dias. A informação chega até nós de maneira tão rápida e constante que, em algum momento, parece que precisamos criar uma espécie de anestesia para continuar vivendo. Vemos, nos indignamos por alguns minutos, compartilhamos, comentamos e seguimos para o próximo assunto. E não estou dizendo que deveríamos viver em sofrimento constante, mas talvez devêssemos nos perguntar: o que acontece quando a dor do outro já não é capaz de nos atingir? E quando a nossa dor não sensibilizar mais ninguém e não tivermos mais rede de apoio e vivermos isolados sozinhos tentando solucionar nossos problemas, mesmo no meio de uma multidão que se tornou apática?
Sociedade Paliativa tem uma voz extremamente potente justamente porque não romantiza a dor, mas nos faz pensar sobre a tentativa desesperada de eliminá-la completamente. Afinal, uma coisa é aliviar uma dor que pode e deve ser tratada; outra completamente diferente é acreditar que toda dor precisa ser silenciada antes mesmo que possamos compreendê-la. Han critica justamente uma sociedade que, muitas vezes, prefere administrar os sintomas a enfrentar aquilo que produz o sofrimento. Quando a dor é transformada apenas em um problema individual, deixamos de perguntar quais estruturas sociais, políticas e econômicas também estão produzindo essa dor.
E isso é assustadoramente atual. Porque é muito mais fácil dizer para alguém ser resiliente, pensar positivo e superar suas dificuldades do que questionar por que tantas pessoas estão cansadas, deprimidas, isoladas e adoecidas. É mais fácil transformar tudo em um problema individual/pessoal do que admitir que talvez exista algo profundamente errado na forma como estamos vivendo, na forma como a sociedade está sendo guiada para o adoecimento coletivo. Uma das ideias que mais me chamou atenção é justamente essa: se toda dor precisa ser eliminada individualmente, também perdemos a possibilidade de reconhecer uma dor coletiva. E sem reconhecer o que dói em comum, talvez também percamos a capacidade de mudar aquilo que está errado. É um "sistema" doentio esse, não é mesmo?
De tudo o que escrevi, é perceptível que gostei muito da leitura. É um livro pequeno, mas não é uma leitura que termina quando fechamos suas páginas. Pelo contrário, é daqueles volumes que continuam reverberando. A escrita de Byung-Chul Han é filosófica e, em alguns momentos, bastante densa, então acredito que não seja um livro para ser lido às pressas e que talvez não seja acessível em material teórico para todos. Precisei parar, voltar em alguns trechos e refletir, pesquisar assuntos. E, sinceramente, acho que esse é exatamente o tipo de livro que precisamos ler com calma e estudar, porque talvez estejamos tão preocupados em não sofrer que estamos esquecendo como sentir.
Talvez, tentando eliminar toda dor, estejamos eliminando também a capacidade de reconhecer a dor do outro. Talvez nossa busca incessante por conforto esteja nos tornando cada vez mais indiferentes. E talvez uma vida sem nenhuma dor não seja, necessariamente, uma vida mais humana, mas apenas uma vida anestesiada, um afastamento do outro, das vivências e o não encontro de significados.
Recomendo Sociedade Paliativa: A Dor Hoje para leitores interessados em filosofia, sociologia, comportamento contemporâneo e, principalmente, para quem sente que existe algo profundamente estranho na forma como estamos vivendo hoje. É um livro curto, potente e cheio de reflexões incômodas. E talvez seja justamente por isso que considero uma leitura urgente. Nem sempre precisamos de livros que nos confortem. Às vezes precisamos de livros que nos sacudam, nos façam sentir desconforto e nos obriguem a olhar para aquilo que estamos tentando desesperadamente não sentir.
Espero que esta resenha tenha despertado sua curiosidade para conhecer esse pequeno, mas extremamente provocador volume.
Muito obrigada pela leitura e até a próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: Palliattivgesellschaft - Schmerz Heute Autor: Byung-Chul Han Tradutor: Lucas Machado Gênero: Filosofia. Autoajuda. Sociedade. Psicologia. Editora: Vozes Ano: 2020-2021 | 120 págs. País de Origem: Coreia do Sul. Alemanha. Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Depressão. Ansiedade. Morte. Dor. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐ (4/5) |

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