Resenha: "Americanah" de Chimamanda Ngozi Adichie

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie, São Paulo: Companhia das Letras, 2014, 520 pág.
Tradução: Julia Romeu
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Saudações Leitores!
Americanah (2013) é mais um livro da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, inclusive aqui no blog temos resenha de outro livros dela: Sejamos Todos Feministas, Para Educar Crianças Feministas e o livro de contos No Seu Pescoço. Minha experiência com essa escritora sempre foi muito positiva e, desta vez, não foi diferente.

Para quem me acompanha nas redes sociais sabe que Americanah foi o último livro que li em 2018, mas somente hoje consegui postar resenha, precisei de um bom tempo para me sentir segura para falar sobre a obra e aproveitei esse tempo para processar tudo o que li.
"O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queremos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesmo como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro nos Estados Unidos e se apaixona por uma pessoa branca, a raça não importa quando vocês estão juntos sem mais ninguém por perto, porque então é só você e seu amor. Mas no minuto em que põe o pé na rua, a raça importa. Mas nós não falamos sobre isso. Nem falamos com nosso namorado branco sobre as pequenas coisas que nos irritam e as coisas que queríamos que ele entendesse melhor, pois temos medo de que ele diga que estamos exagerando e que nos ofendemos com facilidade demais..."
Afirmo, categoricamente que este livro foi uma experiência muito intensa, no sentido de ter me emocionado bastante e me feito derramar algumas lágrimas. Americanah aborda temas muito específicos e importante para reflexões, questionamentos e discussões acirradas que é o racismo, emigração, questões raciais nos Estados Unidos, crises políticas na Nigéria, identidade, família, entre outros.
"O mundo era um lugar tão, tão grande, e ela tão pequena, tão insignificante, sendo jogada de um lado para o outro, vazia."
Aqui iremos acompanhar a história de Ifemelu e Obinze, dois jovens nigerianos apaixonados, vivendo numa Nigéria sob o regime militar, numa época em que muitas escolas e universidades viviam em meio a greves e paralisações, dificultando a formação dos alunos, é nesse ínterim que Ifemelu consegue uma bolsa parcial para fazer faculdade nos Estados Unidos e se muda. Obinze segue na Nigéria na perspectiva de tentar ir logo em seguida para os Estados Unidos para poder estudar e ficar com a namorada, mas as coisas não saem como o planejado.
"O cabelo de Ifemelu pendia em vez de se manter armado. Estava liso e cintilante, dividido na lateral e virado levemente para dentro na altura do queixo. Não tinha mais cachos. Ela não se reconheceu. Saiu do salão quase de luto; enquanto a cabeleireira alisava as pontas com um ferro, o cheiro de queimado, de algo orgânico morrendo, causou nela uma sensação de perda."
A vida que ambos sonharam e a vida que realmente tiveram que levar foi absurdamente diferente e, tanto Ifemelu quando Obinze, tiveram que "aceitar" o destino e o afastamento um do outro. Anos se passam e os dois perdem o contato.
Cada um em sua vida vai lidando com os problemas e percalços de serem estrangeiros e as frustrações de não se reconhecerem diante das próprias decisões e rumos que tomaram. Ifemelu sofre muitos preconceitos na America e tenta mostrar tudo isso em seu blog que se torna muito famoso por falar de racismo, preconceito e outros assuntos afins, no entanto, ela sente que em meio às postagens ela se perdeu, perdeu sua identidade. É quando ela decide que tem que se reinventar e largar tudo para voltar às suas raízes que é morar na Nigéria.
"Acho que neste país a noção de classe está no ar que as pessoas respiram. Todo mundo sabe seu lugar. Até as pessoas que têm raiva da divisão de classes aceitam seu lugar... Um menino branco e uma menina negra que passam a infância na mesma cidade de classe trabalhadora podem namorar e a raça vai ser secundária, mas nos Estados Unidos, mesmo que o menino branco e a menina negra tiverem passado a infância no mesmo bairro, a raça vai ser primária."
É aí que, Obinze e Ifemelu, voltam a se encontrar e a conversar, mas apesar de agora estarem vivendo no mesmo país continuam vivendo vidas muito distantes uma da outra. Enquanto Ifemelu ainda está tentando se firmar como profissional e buscando sua felicidade e identidade; Obinze tem que lidar com o trabalho excessivo de um homem já rico, com a esposa e a filha pequena.
"Ele já estava olhando para o relacionamento deles pelas lentes do pretérito. Aquilo a intrigava, a capacidade do amor romântico de se transformar, a rapidez com que uma pessoa amada podia se tornar uma estranha. Para onde o amor ia? Talvez o amor verdadeiro fosse o da família, ligado de alguma maneira ao sangue, já que o amor pelos filhos não morria como o amor romântico."
A obra de Chimamanda é muito densa e forte, as discussões que ela proporciona e toda a reflexão em torno do racismo, do preconceito, de ser estrangeiro, dos relacionamentos humanos, das lembranças e memórias de um povo, questões políticas, sociais e financeiras são de fazer qualquer leitor ficar emocionado e sensibilizado com a estória, a ponto de se colocar na pele dos próprios personagens.
Americanah se tornou um dos meus livros favoritos da vida, embora eu não tenha concordado com tudo o que aconteceu dentro da estória, com algumas das escolhas dos personagens e de algumas de suas ações, percebo, no entanto, que são decisões-ações-escolhas reais, que vivem acontecendo e não dá para mudar a realidade só com a força de nossos desejos. O fato é que consegui entender tudo o que aconteceu e todas as motivações que os levaram a escolher e a fazer o que fizeram, foi até certo ponto muito romântico e imprescindível.
"Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com famílias que as amam, pessoas normais que pagam impostos."
Amei esse livro e tudo o que ele me fez sentir durante a leitura, todas as reflexões que ele me proporcionou, todos os temas fantasticamente bem argumentados e embasados, além de ter muitas questões feministas e de empoderamento dentro dessa obra, temas que estou amando muito ver em livros.

Enfim, super recomendo Americanah, estou cada vez mais apaixonada pelos temas que a escritora, Chimamanda, aborda e pela forma como aborda, e, claro, também seu estilo de narrativa fácil e com fluidez. Sensacional!
"... o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem os bancos recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, o juris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por que estavam dirigindo um carro, as empresas negras não escolhe não contratar alguém porque seu nome soa como uma pessoa branca, os professores negros não dizem as crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos através da manipulação dos distritos eleitorais, e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamurosos porque elas não são consideradas "aspiracionais" pelo "mainstream"."

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