Resenha: "No Jardim do Ogro de Leïla Slimani

No Jardim do Ogro, Leïla Slimani, São Paulo: TusQuets Editores (Planeta), 2019, 192 pág.
Tradução: Gisela Bergonzoni
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Saudações Leitores!
No Jardim do Ogro (Dans le Jardin de L'Ogre, 2014) escrito pela franco-marroquina Leïla Slimani foi o livro de estréia da autora, porém aqui, no Brasil, foi recentemente publicado. O primeiro livro que li de Leïla Slimani e foi Canção de Ninar resenhado no blog e no canal. A propósito, No Jardim do Ogro, também já foi resenhado no canal.

Nesse volume vamos acompanhar a estória de Adèle que é, aparentemente, uma jornalista bem sucedida e tem uma família perfeita. Seu marido, Richard, é um médico conhecido e ambos tem um filho pequeno. Porém, diante dessa fachada de família perfeita e estável, Adèle esconde um segredo: sua compulsão por sexo, desejos exóticos e a vontade de correr riscos com seus casos extra-conjugais.
"Ela quer ser apenas um objeto no meio de uma horda, ser devorada, chupada, engolida inteira. Que belisquem seus seios, que mordam seu ventre. Quer ser uma boneca no jardim de um ogro."
Durante No Jardim do Ogro vamos acompanhar os casos extra-conjugais de Adèle e seu medo de ser descoberta, sua vontade de parar de ser assim e ter uma vida normal, mas a dificuldade de parar. Ela vive um verdadeiro dilema e isso é extremamente visceral durante a narrativa.

Leïla Slimani, realmente, não poupa o leitor sobre os pensamentos mais cruéis e instáveis de seus personagens e na medida em que desenrola os fatos na obra, vai nos apresentando nas entrelinhas e através de flash-backs como era a relação de Adèle com seu marido, com seu filho, com seus pais, com seu emprego e com seus amantes, vamos tendo um panorama de tudo isso e construindo cada personagem com os fragmentos expostos pela escritora.
"Ela olha para eles e entende que agora sua vida será sempre a mesma. Cuidará dos filhos, se preocupará com o que eles comem. Passará as férias nos lugares que os agradam, tentará distraí-los todos os finais de semana. Como os burgueses do mundo inteiro, irá buscá-los nas aulas de violão, levá-los ao teatro, à escola, irá procurar tudo o que possa "explorar ao máximo seu potencial"."
É através da narrativa fragmentada que vamos percebendo que Adèle não casou por amor, mas quase por uma obrigação de ser respeitada e admirada; vamos delineando a relação da personagem com a maternidade, seu caso de amor e ódio pelo filho que é fonte de alegria, mas ao mesmo tempo lhe roubou sua liberdade; percebemos que sua forma de ver a vida pode ser consequência da relação difícil que ela viveu na família.

No Jardim do Ogro é um livro que aborda muitos problemas psicológicos e não só os de Adèle, mas também do próprio marido: Richard. De certo modo, posso garantir que o volume é bastante cruel, real e tem uma beleza até certo ponto gótica.
"Adèle fez um filho pela mesma razão que se casou. Para pertencer ao mundo e se proteger de qualquer diferença com os outros. Ao se tornar esposa e mãe, ela se cercou de uma aura de respeitabilidade que ninguém pode lhe tirar. Construiu para si um refúgio para as noites de angústia e um recuo confortável para os dias desregrada."
Porém, mesmo tendo gostado bastante de No Jardim do Ogro preciso dizer que o livro não correspondeu minhas expectativas, porque eu esperava sentir a mesma emoção que senti lendo Canção de Ninar mas não. Não houve surpresas, Leïla não soube se reinventar e seguiu a mesma receita de Canção de Ninar (ou seria o oposto, já que No Jardim do Ogro foi publicado primeiro?).
"As pessoas insatisfeitas destroem tudo em volta delas."
O fato é que os personagens de ambos os livros: sua ações, pensamentos e comportamentos são praticamente os mesmos e/ou muito similares e isso não gera nada de novo, a não ser mais crueza aos pensamentos que internamente sentimos mas não temos coragem de falar em voz alta. A natureza dos personagens da escritora é nua e crua e isso faz com que nos identifiquemos com eles em vários momentos.
Outro ponto que acho válido ressaltar é a forma da narrativa de Leïla Slimani: sua narrativa é lenta, tem ritmo próprio e exige uma certa concentração do leitor, porém isso também é bom para melhor assimilar todos os pensamentos e sentimentos presentes na obra. Desse modo, mesmo que o volume não chegue a ter 200 páginas, pode não ser possível lê-lo rapidamente.
"O amor não passa de paciência. Uma paciência devota, violenta, tirânica. Uma paciência insensatamente otimista."
Em suma, No Jardim do Ogro é um livro assustadoramente visceral e cru, muito bem escrito e o estilo de escrita da autora realmente me agrada e mostra sua potencialidade, gosto da forma como ela aborda o amor como algo cotidiano e não supervalorizado, fico assustada com a visão de maternidade e relacionamentos pessoais dos personagens, admiro bastante a construção dos personagens e da forma como eles alimentam sentimentos tão dicotômicos, tanto entre eles como nos próprios leitores. Dito isso, é claro que não deixo de recomendar o volume, acredito que a leitura é mais do que válida.

Boa Leitura!

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