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O Parque das Irmãs Magníficas - Camila Sosa Villada (resenha)

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O Parque das Irmãs Magníficas é um livro impactante, doloroso e com uma leitura assustadoramente viciante

Saudações Leitores!

O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS (Las Malas, 2019) da escritora e atriz argentina Camila Sosa Villada, foi o ganhador de um prêmio prestigiado chamado Sor Juana Inés de la Cruz, conferido pela Feria Internacional del Libro de Guadalajara. Este é meu primeiro contato com a escrita de Camila e já posso dizer que fiquei impactada.

Não vou dizer que O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS é uma leitura leve e fácil, pois na verdade, é bem pesada e tem muita cena gráfica que pode ser um verdadeiro "trigger", ou seja, gatilhos, principalmente para quem faz parte ou apoia a comunidade LGBTQIA+, ou mesmo qualquer ser humano mais sensível (como é meu caso, pois sempre costumo empatizar muito com pessoas e situações vividas).

"Quando comecei a me travestir, sentia vergonha da minha barba áspera, meu nariz torto, meus dentes tortos. Sentia vergonha de minha falta de estudos, minha falta de visão de mundo, minhas dificuldades em me expressar. Até minhas virtudes me envergonhavam, porque nasceram dos meus erros, das minhas carências."

"Aos quatro, aos seis, aos dez anos, eu chorava de medo. Tinha aprendido a chorar em silêncio. Na minha casa e com um pai como o meu, era proibido chorar. Podia-se ficar em silêncio, descontar a raiva enquanto se rachava lenha, sair na porrada com outros meninos do bairro, dar murro nas paredes, mas chorar nunca. E, menos ainda, chorar de medo. De maneira que aprendi a chorar em silêncio, no banheiro, no meu quarto, a caminho do colégio. Meu uso particular daquilo que só era permitido às mulheres. Chorar. Regozijava-me naquele pranto, permitia-me ser a protagonista do meu melodrama
Em  O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS vamos acompanhar a história de Camila que desde criança se sentia aprisionada em um corpo de menino, por isso tornou-se travesti, no entanto, ao fazer essa escolha, Camila teve que enfrentar não somente o preconceito da sociedade, mas o dos próprios pais que acabavam mantendo com Camila e entre eles mesmos um relacionamento violento.

Camila cresceu em uma família tóxica, não resta dúvida - pelo que ela relata, uma família que nunca soube apoiá-la em sua diferença, em suas escolhas e sonhos. Mas também porque o próprio relacionamento dos pais é violento, por isso Camila presenciou e passou por muitas agressões.

Porém, vale ressaltar que O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS ultrapassa aquilo que podemos chamar de autobiografia, tendo em vista que tem partes ficcionais, mas nem por isso deixa de ser emocionante, dramático e verdadeiro.

Durante a leitura Camila nos mostra como desde pequena queria ser menina, o quanto sofreu abusos de pessoas, o quanto passou por humilhações e tratamentos que nenhum ser humano merece, e foi em sua jornada que ela conheceu em um parque da Argentina um grupo de mulheres travestis que acabam se apoiando, se protegendo e se tornando uma "família" uma para as outras.

"Digo que fui me convertendo nessa mulher que sou agora por pura necessidade. Aquela infância de violência, um pai que por qualquer desculpa arremessava o que tivesse por perto, tirava o cinto e castigava, enfurecia-se e batia na matéria todas ao redor: esposa, filho, matéria, cão. Aquele animal feroz, meu fantasma, meu pesadelo: tudo era horrível demais para eu querer ser homem. Não podia ser um homem naquele mundo."

Nesse ínterim, também percebemos que mesmo sofrendo desumanidades, Camila tenta ver a vida com uma certa esperança de que conseguirá superar preconceitos e que pode encontrar a felicidade, mas ainda assim  ela mostra que mesmo tento as outras travestis como rede de apoio, elas não conseguem se proteger completamente.

Camila mostra que as travestis passam por coisas que não conseguem se proteger como a violência de caras com que saem, estupros, mortes, assassinatos. Camila levanta a questão de vários desaparecimentos que não são percebidos pela sociedade e apenas pelas próprias travestis, mostra que tem pessoas que queimam, estupram e violentam as travesti por não respeitarem suas escolhas e seus corpos.

O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS é um livro que revira nosso estomago de tanta crueldade, porque mesmo lendo tudo aquilo não chegamos nem perto de entender, compreender e saber todos os sofrimentos dessas pessoas, todos os medos que elas passam e a inconstância de estarem vivos. 

É assustador também ver o quanto Camila lutou para não ser travestir, para ser o menino que os pais e a sociedade queria que fosse, pois esse seria o caminho mais fácil e menos sofrido, mas como lutar com algo que vem de uma certeza interior?

"A noite era mais daninha que qualquer outra coisa naquela época. Viver de noite envelhece, entristece. A noite é a porta aberta ao mundo onde tudo é possível. Existem coisas que não podem acontecer à luz do dia. E por aí caminho, com meus dezoito anos, ganhando a vida naqueles bares, sovina na quantidade de roupas, com poucos conhecimentos de dança, mas com confiança na minha ginga e coragem para enfrentar todos os ritmos. Tenho a determinação de não virar prostituta, acho que posso conseguir e não acabar como todas. Mas também me pergunto quem sou eu para não acatar o destino que todas acatam. Suporto as grosserias do público, as passadas de mão desrespeitosas, o pagamento miserável, tudo para não me converter num clichê. Quero ser estupidamente única, mas a verdade é que meu corpo já começou a se vender, já está na vitrine: artigo mais ou menos desejável, dependendo do cliente."

Fiquei com o coração partido ao ler O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS precisei parar a leitura para respirar diversas vezes. Mesmo diante de todo o peso de temática que o livro traz, vale ressaltar que Camila também conta histórias felizes, raros casos em que travestis que encontram namorados, casaram e vivem felizes. No entanto, são casos tão raros, mas que dão uma esperança.

O final de O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS é bem real, isso quer dizer que tem um quê de triste, feliz e assustador, mas completamente real com tudo o que acontece em nossa contemporaneidade em relação a não aceitação de orientação sexual. 

Apesar de O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS ser um livro bem pesado e cheio de gatilhos é um livro que indico para quem quer conhecer melhor a realidade das travestis, entender tudo o que elas passam e vivem e, consequentemente, terem mais empatia para com todos. No entanto, eu recomendo cautela ao ler, porque é uma leitura que tem potencial de mexer com seu emocional e deixar qualquer um fragilizado (eu me senti assim em diversas partes da leitura, não é fácil).

Antes de finalizar queria dizer que O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS é narrado em primeira pessoa, como se fosse um relato, as sessões são curtas o que dá uma velocidade para a leitura, mesmo diante do fato de não haverem tantos diálogos.

"Quantas vezes tínhamos ouvido aquilo: "As travestis são muito barraqueiras", "Não meta uma travesti na tua casa", "São ladras", "São muito complicadas", "Pobrezinhas, não é culpa delas, mas são assim". O desprezo com que nos olhavam. A maneira como nos xingavam. As pedradas. As perseguições. [...] Cada uma das porradas que eram somadas às que nos deram nossos pais para nos reverter, para nos trazer de volta ao mundo dos normais, os corretos, os que formam famílias e têm filhos e amam a Deus e cuidam do seu trabalho e tornam o patrão rico e envelhecem ao lado de suas esposas. A fúria contra o silêncio e a cumplicidade de nossas mães com o desprezo sistemático de nossa existência."

Ao finalizar esta leitura posso dizer que esse livro me mudou bastante, principalmente porque, mesmo sabendo dessas temáticas e tentando conhecer as discussões a respeito, foi com esse livro que cheguei mais perto de "vivenciar" a experiência de uma travesti e assim entender muito mais sobre a necessidade de debatermos sobre respeito e tolerância às diferenças, escolhas em relação a gênero e, não estou entrando no mérito de ser certo ou errado, porque ninguém tem o direito de julgar, mas o mérito maior é que devemos tratar todos os seres humanos de forma humana e com respeito. Sua opção sexual, sua cor, seu sexo - o que seja - não é o que deve determinar a forma de como uma pessoa deve ser tratada.

"Toda vez que os jornais anunciam um novo crime, os miseráveis dão o nome masculino da vítima. Dizem "os travestis", "o travesti", tudo é parte da condenação. O propósito é fazermos pagar até o último grama de vida em nosso corpo. Não querem que nenhuma de nós sobreviva. Uma foi assassinada a pedradas. Outra foi queimada viva, como uma bruxa: encharcaram-na de gasolina e tacaram fogo, no acostamento da rodovia. Acontece mais e mais desaparecimentos. Existe um monstro lá fora, um mostro que se alimenta de travestis."

FICHA TÉCNICA
O Parque das Irmãs Magníficas
Autor: Camila Sosa Villada
Tradutor: Joca Reiners Terron
São Paulo: Planeta
2021 | 208 págs.

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