Frankenstein é daqueles livros que quanto mais pensamos mais amamos, que livro!
Saudações, Leitores!
Tenho esse livro já faz um tempo na minha estante, mas somente recentemente finalizei a leitura de Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley, numa edição absolutamente primorosa da DarkSide, cheia de extras, notas complementares e alguns outros contos da autora (contos que não vou me deter, ok?), e posso afirmar que poucas vezes fiquei tão surpresa com uma obra que eu achava que já conhecia. Cresci ouvindo falar de Frankenstein, vendo referências em filmes, séries, desenhos e até em temas de Halloween, mas nunca tinha lido o livro. Não é spoiler o que vou falar porque o livro foi publicado em 1818, foi só falta de atenção e pesquisa de minha parte, mas descobrir que Frankenstein não é a criatura, mas sim o criador, foi apenas a primeira de muitas revelações que transformaram essa leitura num deleite filosófico, literário e emocional e não digo que foi tão assustador, apesar de ter cenas pesadas, mas foi bem mais reflexivo com o "andar" da narrativa.
Mary Shelley escreveu esse romance quando ainda era muito jovem, mas já carregava consigo o peso e o brilho intelectual de ser filha de Mary Wollstonecraft e William Godwin, dois dos pensadores mais radicais e influentes de seu tempo. A atmosfera que circulava ao redor dela, debates sobre ciência, sociedade, ética, política, imaginação e liberdade, paira sobre cada página dessa história. E é fascinante perceber como, ao longo do livro, ela articula todos esses temas com delicadeza e ao mesmo tempo com contundência. Isso inclusive é colocado no conteúdo extra do volume.
Então vamos a Frankenstein: a narrativa tem início com as cartas do capitão Walton, que escreve-as para relatar sua expedição ao Ártico. É nessa moldura que encontramos Victor Frankenstein, à beira da morte, disposto a contar sua história como um alerta, e aqui já percebemos que nada terminará bem. Victor narra sua juventude em Genebra, seu fascínio pelas ciências naturais, sua ida à Universidade de Ingolstadt e o momento em que, tomado por ambição e obsessão, decide criar vida a partir de restos humanos. A cena da criação, tão distinta das adaptações cinematográficas cheias de raios e gritos, carrega algo profundamente melancólico: o instante em que a criatura abre os olhos e Victor é tomado por repulsa, foge, abandonando aquele ser recém-nascido à própria sorte (abandono afetivo é como podemos chamar hoje em dia, né? Gatilho.).
A partir desse abandono, tudo se desencadeia. A criatura vagueia sozinha até se deparar com uma casa abandonada e decide se esconder lá, então, aprende a falar e a compreender o mundo observando a família que mora ali próximo em uma casinha humilde, desenvolve sensibilidade, afeto e desejo de pertencer, mas encontra apenas rejeição por sua aparência gigantesca e monstruosa, até mesmo daqueles que nunca lhe fizeram mal. Esse aprendizado doloroso torna o ser cada vez mais lúcido e, ao mesmo tempo, mais desesperado por companhia e afeto. Quando enfim consegue confrontar Victor Frankenstein, reivindica aquilo que lhe é negado desde o primeiro momento: reconhecimento, cuidado, uma chance de existir no mundo como qualquer outro ser humano e uma companhia. O contraste entre a eloquência da criatura e a covardia moral de Victor é, talvez, um dos maiores trunfos do livro. O poder de argumentação do "monstro" e a insegurança, medo e covardia de assumir seus atos de Victor é perturbadora.
E então vêm as tragédias: o assassinato de William, a injusta condenação de Justine, a morte de Henry Clerval, o terrível assassinato de Elizabeth na noite de núpcias e a do próprio pai de Victor. Cada perda é uma pedra a mais no colapso existencial de Victor, que passa a perseguir sua criatura movido não só por ódio, mas por remorso e impotência. A perseguição culmina novamente no gelo, onde Victor já debilitado morre e a criatura, ao encontrá-lo, confessa sua dor para o capitão Walton e se despede do mundo num dos discursos mais tristes e "humanos" que já li. É impossível não sentir compaixão e é isso que torna Frankenstein tão marcante: a inversão da monstruosidade. Percebermos que o monstro só se torna "monstro" em razão das vulnerabilidades que marcam sua vida e o "homem" perde sua humanidade por vingança, covardia, orgulho, ganância, poder, conhecimento, falta de empatia. É um livro assustador, percebem? Shelley joga tudo isso na nossa cara e coloca a responsabilidade da sociedade nos nossos atos e omissões, a sociedade é reflexo daquilo que estamos construindo em constante movimento.
A leitura foi, para mim, uma revelação. Shelley nos conduz a reflexões profundas sobre responsabilidade: o que significa criar algo? Quais são nossas obrigações éticas diante do conhecimento que produzimos? Victor rompe limites científicos e, em vez de encarar as consequências, abandona a criatura, que nasce inocente e se torna violenta apenas porque o mundo se recusa a reconhecê-la como igual. Nesse ponto, o romance vai além da ficção gótica e se transforma numa crítica social sobre exclusão, preconceito e a forma como a rejeição molda aquilo que chamamos de “monstro”. Quem é, afinal, o verdadeiro agente da destruição? O ser que apenas busca companhia ou o homem que escolhe virar as costas para sua própria criação?
Ao longo da leitura, percebi o quanto Mary Shelley estava muito à frente de seu tempo ao trazer para o centro da narrativa questões sobre ética científica, limites do conhecimento, ambição intelectual e o perigo de se brincar de Deus sem responsabilidade. O subtítulo O Prometeu Moderno funciona como alerta: tal como Prometeu roubou o fogo dos deuses e pagou um preço terrível, Victor rouba os segredos da vida e desencadeia uma tragédia que atravessa famílias, cidades e almas. Há também um contraste belíssimo entre as paisagens grandiosas, montanhas, lagos, o Ártico, e a pequenez moral das decisões humanas. Essa estética sublime ressalta o quanto a natureza permanece indiferente aos dramas que nós mesmos criamos.
A edição da DarkSide, com seus contos extras, ampliou muito minha percepção da autora. Os contos de Shelley ecoam temas presentes em Frankenstein: transformações, identidades fragmentadas, isolamento, medo das consequências da ciência, e sobretudo a eterna tentativa humana de ultrapassar limites. Foi enriquecedor perceber como esses textos dialogam com o romance e evidenciam a complexidade literária de Mary Shelley, que, injustamente, por muito tempo foi reduzida apenas à autora de um livro de monstro.
Terminei Frankenstein simplesmente encantada. Foi uma leitura densa, poética, perturbadora, surpreendente e, acima de tudo, profundamente humana. Passei o livro inteiro me perguntando quem, de fato, era o monstro dessa história e concluí que Shelley talvez quisesse nos mostrar que o verdadeiro horror não está na criatura, mas na irresponsabilidade, no abandono, na incapacidade de acolher aquilo que criamos. Essa inversão é brilhante e faz do romance um clássico que continua pulsante e urgente. E dá para ser interpretado em diversos contextos, quem dera todo mundo lesse e se "embebedasse" do "não dito" presente nessa obras, das reflexões extremamente pertinentes e ainda contemporâneas.
Se você, assim como eu, cresceu ouvindo o nome Frankenstein e achava que já sabia do que se tratava, por favor: leia. A verdadeira história é muito mais profunda, trágica e filosoficamente rica do que qualquer adaptação já deixou transparecer. E que surpresa foi descobrir isso tão tarde, mas tão a tempo de me apaixonar, provavelmente se eu tivesse lido antes não teria me envolvido tanto.
Só mais um ponto, quero muito conferir a adaptação da Netflix desse livro.
Espero que tenham gostado, obrigada por ter lido até aqui e até o próximo post!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: Frankenstein, or, The Modern Prometheus Autor: Mary Shelley Tradutor: Márcia Xavier de Brito Gênero: Ficção. Clássico. Terror. Horror. Editora: DarkSide Ano: 1818-2017 | 304 págs. País de Origem: Inglaterra Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Tentativa de homicídio. Homicídio. Morte (incluindo de criança). Depressão. Islamofobia, Xenofobia. Abandono parental. Minha avaliação:⭐⭐⭐⭐⭐❤️(5/5) |

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