Um Mundo à Parte é um livro visceral e reflexivo que merece ser lido
Saudações, Leitores!
Mais uma vez mergulhei numa das obras de Jodi Picoult e foi sensacional! A autora nos faz encarar dilemas éticos e humanos sob outra perspectiva o que torna esses novos olhares bastante complexos. Um Mundo à Parte (House Rules, 2010) é um desses volumes que nos coloca diante de uma história impactante ao tratar da história de uma família vivendo dilemas com a justiça e o tribunal. A autora norte-americana é mundialmente conhecida por construir histórias que trazem polêmicas e deixam o leitor com os sentimentos conflituosos, sendo autora do famoso A Guardiã da Minha Irmã (que já li e resenhei) e de outros dois livros que também tem veredito no blog: As Vozes do Coração e Coração de Mãe, que também exploram temas conflituosos.
Em Um Mundo à Parte temos um drama familiar com um suspense policial viciante devido toda a condição que somos apresentados na narrativa, além disso todo o livro traz capítulos alternados entre os personagens, ou seja, vamos acompanhando essa história sob várias perspectivas. O enredo acompanha a vida de Emma Hunt, uma mãe solo extremamente dedicada a seus dois filhos: Jacob, o filho mais velho, e Theo, o caçula. Jacob já é um jovem de dezoito anos, que desde os três anos foi diagnosticado com Síndrome de Aspenger, aqui quero fazer um adendo, pois esta é uma nomenclatura já antiga, hoje essa síndrome já é categorizada dentro do Espectro do Autismo.
Jacob que é a figura central da trama, já teve vários hiperfocos, mas na idade atual, possui uma obsessão por ciência forense e uma série de TV chamada CrimeBusters, além do mais costuma "brincar" de recriar cenas de crimes em sua própria casa. Para além disso, o jovem também tem um rádio da polícia local e, por ouvir o que acontece na cidade, muitas vezes aparece em cenas de crimes locais. Neste ponto já podemos depreender que este livro já trata temas muito contemporâneos e reais, sobre as questões de habilidades sociais e preconceitos que pessoas neurodivergentes podem sofrer.
O enredo dessa história tomam forma quando a professora de habilidades sociais de Jacob, Jess Ogilvy, é dada como desaparecida e posteriormente encontrada morta e em sua agenda a última pessoa com quem deveria ter se encontrado era Jacob. Por conta de seus comportamentos atípicos, de sua fixação por investigações e perícia forense, o jovem se torna o principal suspeito do assassinato, para completar Jacob tem algumas falas e ações comprometedoras para olhos não adaptados à neurodivergencia, gerado possíveis mal-entendidos. A partir disso somos lançados em uma narrativa eletrizante ao passo que também angustiante, onde acompanhamos os desdobramentos de um julgamento que coloca em xeque a capacidade do sistema jurídico de compreender e julgar pessoas com algum tipo de deficiência, principalmente Aspenger (TEA).
Ao ler Um Mundo à Parte fiquei impressionada não só com o enredo que, para mim, foi inusitado, mas também pela pesquisa profunda e minuciosa que Picoult fez para escrever, pois nos entregou um retrato muito fiel das dores, lutas e rotinas de uma mãe solo que abdica de sua própria vida e carreira para proteger e apoiar um dos filhos em um mundo que não o compreende. Falo desse detalhe porque eu trabalho diariamente com crianças e adolescentes com deficiências e transtornos de neurodesenvolvimento ou de aprendizagem e é extremamente difícil e desgastante principalmente se pararmos para pensar que o responsável por eles não tira férias e que nem todos os direitos são garantidos se esses responsáveis não lutarem por eles. Inclusive esse livro é um soco no estômago para quem tem conhecimento da área de neurodivergência ou convive com alguém assim, porque a autora trouxe uma história com contornos REAIS.
Assim, somos colocados diante de uma realidade cruel e de sofrimento, por mais que tenha partes boas, é inegável que a autora trouxe à tona um assunto delicado, uma situação angustiante e a tensão de uma mãe e uma família que sofre de todos os lados. Outra coisa que nos emociona, e é muito real, é a o olhar sobre outras perspectivas familiares, por exemplo: como a mãe que foi abandonada pelo marido devido a condição do filho, o fato de ter um filho autista essa mãe também não pode seguir carreira profissional em decorrência de constantemente ter que levá-lo para as terapias e médicos para que ele se desenvolvesse mais, uma mãe que acabou se afastando de seu circulo social porque ninguém a entendia, uma mãe que sofria constantemente por ver seu filho amado ser excluído pelos colegas e dos espaços que frequentava.
Além desse ponto por parte da mãe, que é extremametne tenso, temos a visão do irmão: Theo, que mesmo sendo o caçula teve que assumir a responsabilidade pelo irmão mais velho, que em muitas vezes não pode fazer o que queria pela inflexibilidade do irmão, que a mãe muitas vezes não conseguia cumprir suas promessas porque o irmão acabava tendo uma crise, que teve muitas vez que ser deixado de lado porque tudo era para Jacob, que viveu à margem porque todas as atenções eram para o irmão, por ser conhecido como irmão do "garoto esquisito", que nunca pode levar ninguém para casa porque ninguém entenderia Jacob, não entenderia a organização da casa e as cores dos alimentos de acordo com os dias da semana. Theo que desde sempre soube que quando não houvesse mais a mãe era ele quem ficaria com a "herança" de cuidar do irmão mais velho. Um garoto que já cresceu se encolhendo dentro da família. É angustiante se chocar com os capítulos dele!
Eu gostei demais de Um Mundo à Parte, mas preciso confessar que fiquei profundamente angustiada ao longo das páginas; pois a situação não parece tão clara, a narrativa nos deixa em constante dúvida e sob uma tensão psicológica real sobre o que de fato aconteceu naquela noite: Jacob matou ou não Jess? Quem matou Jess? O que aconteceu?
Definitivamente, Um Mundo à Parte é um livro visceral e reflexivo que merece ser lido, sendo recomendado para quem busca um drama de tribunal inteligente e que fuja totalmente do clichê do suspense tradicional. Ele também nos ajuda a ter um olhar mais empático para compreender as nuances do comportamento humano e é uma leitura indispensável para profissionais e estudantes das áreas de educação e saúde mental.
Espero de coração que você tenha gostado de acompanhar mais essa análise aqui no blog, muito obrigada por ler e nos vemos na próxima postagem!
| FICHA TÉCNICA |
| Título Original: House Rules Autor: Jodi Picoult Tradutor: Cecília Camargo Bartalotti Gênero: Ficção. Drama. Policial. Editora: Galera Record Ano: 2010-2013 | 588 págs. País de Origem: Estados Unidos Classificação: +15 Aviso de Conteúdo: Asperger. TEA. Abandono paterno. Maternidade solo. Transtornos. Relacionamentos tóxicos. Violência doméstica. Assassinato. Capacitismo. Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ (5/5) |

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