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A Hora da Estrela (1985) (Filme)

sábado, 10 de outubro de 2026

Saudações, Leitores!

Em 2011, li A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e, para minha surpresa, na época favoritei o livro. O problema é que já se passaram muitos anos e hoje me lembro de pouquíssimos detalhes da história. Talvez por isso assistir ao filme de 1985, dirigido por Suzana Amaral, tenha sido uma experiência tão curiosa: eu reconhecia Macabéa, mas parecia estar conhecendo novamente a sua história. Depois de assistir, fiquei com uma certeza: preciso reler esse livro.

E antes de iniciar minha análise preciso reforçar que este filme é considerado um dos clássicos do cinema nacional, então somente por isso já acho super válido que assistam... sem contar que é incrível ver a ambientação da época, as roupas, a forma de viver... Acho incrível. Uma preciosidade

Título Original: A Hora da Estrela
Ano: 1985
Direção: Suzana Amaral
Duração: 96 min (1h36m)
Classificação: +12
Gênero: Drama Nacional
País de Origem: Brasil
Minha Avaliação: ⭐⭐⭐⭐ (4/5)
Sinopse: Macabéa é uma migrante nordestina semi-analfabeta que trabalha como datilógrafa numa pequena firma e vive numa pensão. Ela conhece o também nordestino Olímpico, um operário metalúrgico, e os dois começam a namorar. Mas Glória, uma colega de trabalho de Macabéa, rouba-lhe o namorado, seguindo o conselho de uma cartomante. Macabéa faz uma consulta à mesma cartomante, Madame Carlota, e esta prevê seu encontro com um homem rico, bonito e carinhoso. Urso de Ouro no Festival de Berlim para a atriz Marcelia Cartaxo.

Uma Macabéa ainda mais triste

Se tem uma palavra que define minha experiência com o filme é melancolia. Achei A Hora da Estrela extremamente triste, quase doloroso de assistir em alguns momentos. E o curioso é que eu não lembrava dessa atmosfera no livro. O que ficou na minha memória foi muito mais a ingenuidade bonita de Macabéa, aquela personagem tão simples, deslocada e inocente, que parece não compreender completamente o mundo e nem a própria existência, uma personagem questionadora e que tenta desvendar a vida.

No filme, porém, essa ingenuidade ganhou um peso enorme. Marcélia Cartaxo dá à personagem uma tristeza profunda, quase silenciosa. Seu olhar, seus gestos e até a maneira como Macabéa ocupa os espaços fazem com que sintamos sua solidão sem que seja necessário explicar muito. É uma atuação belíssima e, ao mesmo tempo, difícil de esquecer.

Do livro para as telas

Uma das mudanças mais significativas está na ausência de Rodrigo S. M., o narrador do livro. E isso transforma bastante a experiência. No romance, estamos diante não apenas da história de Macabéa, mas também das inquietações, questionamentos e reflexões do próprio narrador. No filme, tudo isso é deixado de lado para que a câmera acompanhe diretamente a protagonista e talvez isso faça diferença na nossa leitura da personagem na película.

Para mim, essa escolha funciona. O filme ganha objetividade e se concentra naquilo que talvez seja mais difícil de suportar: observar Macabéa vivendo uma vida na qual quase ninguém realmente a enxerga.

Outras relações também ganham mais espaço. Glória, a colega do trabalho, por exemplo, é muito mais desenvolvida no filme, tornando-se uma presença importante para entendermos ainda mais o contraste entre as duas mulheres. Olímpico também ganha uma representação mais direta, enquanto algumas das camadas presentes no livro acabam naturalmente se perdendo com a retirada do narrador. 

O que mais gostei?

Acho que o maior mérito do filme está justamente em transformar a simplicidade de Macabéa em imagem. Os silêncios, os ambientes, os momentos em que ela está sozinha e até as cenas diante do espelho ajudam a construir uma personagem que parece invisível para o mundo, mas que aos poucos se torna impossível de ignorar para quem está assistindo, também creio que pela percepção que tenho hoje e pela experiência de vida eu consegui ver que Macabéa é um pouco depressiva e quase ninguém a percebia assim de tão "invisível" que era, mas como a estamos acompanhando é angustiante não conseguirmos fazer nada para "ajudar".

Também gostei muito de como o filme mantém a essência da história e sua crítica social, mesmo seguindo um caminho diferente do livro. Não é uma adaptação que tenta reproduzir Clarice palavra por palavra, até porque isso seria praticamente impossível, mas uma interpretação da obra e é isso o que as adaptações sempre fazem: é como se fosse a "leitura" do diretor/roteirista da obra... assim como quando lemos algo podemos sentir e interpretar de formas diferentes. 

Livro ou filme?

Aqui eu realmente preciso reler o livro antes de escolher. Minha memória afetiva ainda diz que favoritei A Hora da Estrela, e talvez isso já seja uma resposta. Mas o filme me fez perceber que eu provavelmente lembrava de uma Macabéa diferente daquela que Suzana Amaral colocou diante de mim.

Saí do filme com uma tristeza profunda, pensando em como é doloroso acompanhar alguém que passou pela vida quase sem ser percebida. E talvez seja justamente aí que esteja a força dessa história: Macabéa é tão ingênua, tão pequena aos olhos do mundo, que quando finalmente ganha alguma atenção, já é tarde demais.

No fim, A Hora da Estrela não foi uma experiência leve para mim. Foi bonita, sensível e muito bem construída, mas também foi dolorosa. E talvez, depois de tantos anos, seja justamente essa a melhor razão para eu voltar ao livro: descobrir se aquela Macabéa que um dia favoritei ainda está lá, esperando que eu a encontre novamente.

Eu espero que você tenha gostado dessa análise e caso tenha assistido ou lido a obra e queira compartilhar sua experiência pode deixar nos comentários.

Obrigada por ler até aqui e até a próxima postagem!

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